terça-feira, 15 de junho de 2021

Coluna Asas #67 - Citando Os Invisíveis e sendo reféns de nossas cobranças - (Fil Felix)

 


“O mundo nos dá corda

e tocamos sempre a mesma musiquinha,

e achamos que ela é tudo o que somos.”

– Grant Morrison em Os Invisíveis #3.

 

Grant Morrison é um roteirista de HQs que muitas vezes é tido por incompreensível, principalmente por suas histórias trazerem sempre um quê metafísico, místico ou esotérico, filosofando sobre a vida e criando mil estruturas diferentes do viver. E recentemente me deparei uma vez mais com essa frase acima, originalmente publicada no primeiro arco de sua renomada série Os Invisíveis (1994, DC).

Mas antes de comentar a citação em si, já gostaria de alertar que esse artigo provavelmente será um turbilhão de pensamentos que venho tendo nas últimas semanas. Mas antes, qual era a dessa série aí? Bom, Os Invisíveis contava a história de um grupo secreto que utilizava de vários aparatos para combater o “mal”, desde magia, viagem no tempo e até meditação, desvendando teorias da conspiração, do fluxo da realidade e cia. Uma trama conhecida pela sua complexidade e viagens psicodélicas.

Recentemente já escrevi um artigo aqui sobre nossas bolhas sociais (Krakoa: Refletindo sobre nossas bolhas sociais) e é um assunto que ainda não digeri completamente, que venho me questionando a respeito várias e várias vezes. De como nos comportamos em cada sub-bolha de nossa sociedade, formando uma bolha maior. E indo além, para nós que trabalhamos com criação, sobre as bolhas, quer dizer, os clubinhos que vamos criando e autogerando. Até onde cruza os pontos positivos, porque de fato é algo que nos beneficia, com os pontos negativos, a dificuldade cada vez maior de sair dela.

“O mundo nos dá corda e tocamos sempre a mesma musiquinha…”, encontrar a fórmula de sucesso em tempos de redes sociais é o Santo Graal da nossa geração. Se tornar refém dela, é o ônus da prova. E lembra do turbilhão que comentei? Pois bem, vem um monte de coisa na minha cabeça sobre isso, da modernidade líquida aos lançamentos da Netflix. Li recentemente que nunca tivemos tanta demanda de entretenimento como hoje, que a disponibilidade de música, filmes e séries é infinita. Literalmente: é impossível absorver tudo.

E me vi dizendo ao meu namorado, dia desses, que por conta de tudo isso uma série tem que nos fisgar no primeiro episódio. Pois não temos tempo de “dar uma chance”. Na ocasião, era a estreia da nova versão de Sailor Moon na Netflix: dois episódios de quase 1h30 cada. Vi o primeiro, não gostei. Ele viu o segundo e disse que melhora bastante. E então lhe dei essa resposta, indo contra até mesmo com o que costumo pregar.

Tudo tem acontecido tão rápido, que cada momento é uma oportunidade. Cada story de 15 segundos do Instagram é uma oportunidade. Cada compartilhamento, cada comentário dado e recebido, cada fresta online é uma oportunidade para quem visa expandir seu trabalho e levá-lo para o além bolha, para o outro público! E nisso, nos transformamos numa espécie de vale tudo.

Tentamos criar um primeiro parágrafo de artigo ou de post que fisgue o leitor (afinal de contas, ele também não tem tempo de “dar uma chance”). Escrevemos um livro projetando uma primeira folha ou primeiro capítulo impactante, para que o leitor não abandone no meio. E por aí vai. Não há mais tempo para nada, ao mesmo tempo em que temos tudo.

 “...e achamos que ela é tudo o que somos.”. E será que é só isso mesmo? Admiro muito quem vem conseguindo se desprender de todas essas neuroses. É o que costumo pregar, que tenhamos uma rotina menos caótica e com foco em produzir, produzir e produzir. Mas que possamos curtir e degustar cada momento da rotina, principalmente pra nós que trabalhamos com criação e estamos sempre num looping de cobrança. Não se trata de sair da roda e do círculo vicioso, mas de quebrá-la!

 Os Invisíveis é uma série que surgiu nos anos 1990, em meio à ascensão tecnológica e das teorias da conspiração de Arquivo X, mas que continua atemporal. O inimigo pode ter mudado de nome ou de estratégia, mas a batalha ainda é a mesma. Foi a Matrix antes mesmo da Matrix. Super recomendo a leitura!



              

“Lutamos contra o outro lado,

as forças que querem controlar a vida das pessoas

e nos manter adormecidos para sempre.”

 – Grant Morrison, em Os Invisíveis #5.

 

E pra você, como está sendo lidar com tudo isso?




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