segunda-feira, 7 de junho de 2021

Coluna Asas #65 - Filosofia pateta - (Bruno de Andrade)


Pato Donald está no meio de uma importante e acirrada partida de futebol. Na beira do campo, Mickey faz as vezes de treinador, exasperado com sua prancheta, tentando passar intricadas instruções para conduzir o time à vitória. Nada funciona. Eles precisam de um gol, o tempo vai ficando curto, a tensão aumenta. Piorando o já dramático cenário, algo urgente requer a presença do rato, e ele abandona seu posto por alguns minutos, já prevendo o desastre que será deixar o time nas mãos de seu abobado auxiliar: o sempre ingênuo e distraído Pateta.

O desengonçado canídeo, por sua vez, não hesita diante de sua nova função e caminha com segurança para berrar palavras de sabedoria junto à lateral do campo:

— Façam gol! Façam gol!

Enquanto corre para resolver sua pendência, Mickey lamenta a sorte de seus comandados, mas logo se surpreende com o barulho da torcida — de alguma forma, os jogadores seguiram à risca as instruções do Pateta.

Problema resolvido, o rato retoma seu lugar no banco. O jogo segue disputado, o apito final se aproxima, o desempate não vem. Donald luta em campo, o elenco da Disney prende a respiração nas arquibancadas, Mickey esgota suas estratégias. É hora de uma última cartada. Ele olha para os lados, um tanto constrangido, mas não há tempo para orgulho. Enche seus pulmões de roedor e se rende à lição patetesca:

— Façam gol! Façam gol!

Hoje, sempre que me vejo travado em frente a uma folha em branco, preso à minha própria prancheta de táticas para impressionar o leitor, ressoa em mim o grito pateta, escancarando minha tolice: escreva! Apenas escreva!

Mas eu me debato como um ratinho teimoso, roendo questionamentos com meus incisivos avantajados. Escrevo, apago, reescrevo, sempre me convenço de que não está bom o suficiente, de que eu não sou bom o suficiente. Grito comandos que as palavras parecem não entender. Fico frustrado, aflito, irritado. Afinal, sou um escritor ou um rato?

Termino o dia com um pedaço de queijo nas mãos; nenhuma linha escrita.

Sinto o mesmo quando vejo escritores em entreveros literários. São muitas as discussões sobre fórmulas, sobre estética, sobre valores artísticos. Vejo autores desenhando uma trilha sinuosa, cheia de obstáculos, de clichês a serem evitados, de estripulias linguísticas e firulas narrativas a serem alcançadas. O caminho, porém, não parece levar ninguém para as proximidades do gol.

Escritores – ainda bem que não sou um –, admitamos, dificilmente são patetas. Mas muitas vezes são bem bobalhões.

Passo a defender, então, a Filosofia Pateta, que carrega a sabedoria que apenas os mais ingênuos, bobos e distraídos podem alcançar. É preciso voltar às origens, ao mais básico, correr sem medo, arriscar, chutar todas as bolas, cair de cara no gramado, ser vaiado, aplaudido, dar carrinho, tomar cartão, bater cabeça, seguir em frente. O gol está logo ali, à vista de todos. Não há segredo. 

Ou talvez haja, um só. Quer saber como se tornar um escritor? Vem comigo, eu te conto:

— Escreva! Escreva!

***

O final da historinha do gibi? O time não fez gol, mas conseguiu um pênalti, no último minuto. Donald na cobrança, uma pilha de nervos. O medo de perder fazendo tremularem as patas do pato. Enquanto corre para a bola, ele é iluminado por uma epifania. A verdade é que a vitória não importava tanto; ele estava ali para se divertir, aproveitar a jornada, jogar sem receio. O bico esboça um sorriso. Ele entendeu a lição do Pateta.

E acaba. Fim.

Jamais saberemos o placar.

Mas não importa. O verdadeiro resultado do jogo já havia sido revelado.


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