quinta-feira, 3 de junho de 2021

Coluna Asas #64 - O juízo final - (Giselle Fiorini Bohn)

 


Há apenas um ano, embora escrevesse mais do que faço hoje, eu jamais me designaria escritora; faltava-me coragem de usar essa palavra. Até que, em julho de 2020, decidi enviar um pequeno conto a um blog de escritores, no desejo de ser lida por meus pares. Deu tão certo que não apenas me leram, como também me elogiaram. O medo da exposição, que até então dominara minha vida, ruiu assim, sem alarde. Adotei o título, ainda que reticente.  

O que não sabia a recém-designada escritora aqui era que outro medo substituiria aquele.


Desde esse pequeno movimento de mostrar pela primeira vez um conto escrito tantos anos antes, muita coisa mudou. Minhas redes sociais, que por uma década se limitaram a fotos de crianças, bichos, férias e refeições de duas dezenas de amigos e parentes, agora são dominadas por poemas, contos, resenhas de livros, ensaios, editais de concursos, avisos de premiações. Aquela foto do pudim que minha tia fez toda orgulhosa no domingo nem me aparece mais.

Nesse novo ambiente, conheci pessoas brilhantes, algumas bem-sucedidas, muitas nem tanto. E, ainda que me doa admitir, já senti inveja de todos os tipos - de talento, de criatividade, de ideias incríveis, mas também de autoconfiança, de falta de modéstia, de cara-de-pau. Meus colegas escritores são admiráveis pelos mais diversos motivos.

Sim, é realmente maravilhoso estar inserida agora nesse mundo das letras, que em tão pouco tempo já me trouxe muitas alegrias: ótimas amizades, muito apoio, críticas necessárias, novas metas. Mas uma coisa eu não esperava: o efeito que essa convivência teria sobre a minha forma de escrever.

Até um ano atrás, eu escrevia, ponto final. Nas minhas fantasias, via pessoas no ponto de ônibus, na praia, na fila do banco, com meus livros nas mãos; no epílogo de um deles, afirmei que queria ser lida por quem “não gosta de ler”, e não menti. Meus leitores ideais seriam aqueles que vinham sem expectativas, porque eu iria ao seu encontro sem pretensões.

Não mais.

“Pretensões” agora é a palavra da vez: tenho muitas. Porque as pessoas no ponto de ônibus, na praia e na fila do banco foram, em minha mente, substituídas por colegas escritores, de óculos, sentados sisudos em suas bibliotecas. E, não, eles não apenas leem: avaliam. Analisam minhas escolhas – nem sempre acertadas – de narrador, tempo, espaço. Examinam minhas pobres metáforas, minhas falhas analogias, a construção dos personagens; desses, então, tenho até dó agora – foram jogados na fogueira do julgamento implacável. Escrevo não mais pensando no conteúdo – é interessante, compreensível, tocante, engraçado? – mas, principalmente na forma: será suficientemente inovadora, criativa, poderosa? Ah, é muita pretensão pra pouca experiência.

Que tudo isso é uma grande bobagem eu tenho plena consciência. Sei que, no fundo, não deveria fazer a menor diferença ser ou não aprovada por meus colegas: estamos todos no mesmo barco; aliás, furado, se olharmos a atual situação do mercado editorial brasileiro. Sei também que só realmente importa que nossos livros toquem alguém, que encantem de alguma maneira, seja pela honestidade, pelo humor, pela emoção. Tudo isso eu sei, mas que na hora de escrever dá medo, ah, isso dá.

Ô, pessoa legal no ponto de ônibus, você mesma, aí: volta pra mim, vai.


Imagem: Woman, de Daniel Nebreda, por Pixabay.

4 comentários:

  1. Giselle, como sempre um texto muito bem escrito e sincero.
    Estou amando vê-la voar. Voe longe, amiga. Eu estarei sempre lendo e me deliciando com seus textos; seja no ponto de ônibus, no sofá da sala ou tomando um café ao seu lado. Sou sua fã e sempre sempre.

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    1. Obrigada, minha querida, você sempre me apoiando! Te amo!

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  2. Você pode ter toda a pretensão do mundo, sem medo algum: leitores, costumazes ou não, escritores, críticos literários, padeiros, astronautas, piratas, trapezistas, gregos e troianos; qualquer um que passe os olhos pela tua escrita com sensibilidade há de se encantar.

    E olha que eu posso falar com conhecimento de causa: nem as raposas resistem às tuas palavras. 😉

    Te garanto que vou sempre estar nesse ponto de ônibus esperando pra embarcar em qualquer viagem em que seus textos possam me levar.

    Ou em qualquer outro lugar, com qualquer outro transporte; se você está na condução, sei que vai valer a pena. 💚

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    1. Awnnn, mas essa raposa tá muito fofa! :) Muito obrigada, você sabe o quanto sua opinião significa pra mim! Te adoro!

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