sábado, 1 de maio de 2021

Coluna Asas #57 - A história sem fim - (Giselle Fiorini Bohn)

 


Decido escrever um conto, cerca de mil palavras; nada que exigiria mais do que uma ou duas horas. O enredo é claro, assim como as escolhas relevantes: espaço, foco narrativo, tempo. Então eu termino. Fim.

Nanã, nada disso. Agora, sim, começa o trabalho, que não levará algumas horas, mas muitas, ao longo de vários dias: decido editar esse texto. E então um “somente” vira “apenas”, um “rápido” se transforma em “veloz” e um “de repente” dá lugar a um “subitamente”. Um parágrafo é desmembrado em dois, um ponto final não mais encerra nada mas deixa muito em aberto com um ponto e vírgula, a protagonista muda de nome. Há agora quatro arquivos muito parecidos com títulos diferentes. As mil palavras originais devem ter gerado outras mil, que ficarão para sempre perdidas.

Então o conto é finalmente batizado; não se fala mais nisso. Mas, seguindo seu nome dentro da pasta, há adendos como NOVO, FINAL, REVISADO e suas combinações: NOVO FINAL, REVISADO NOVO, FINAL REVISADO. Tenho até mesmo um NOVO REVISADO FINAL DEFINITIVO SÉRIO. Juro.

Mas por que eu não consigo botar um fim nessa história? O que me faz ser incapaz de escrever um texto e confiar que ele se basta, o perfeccionismo ou a insegurança?

Suspeito que sejam os dois, em retroalimentação.

O perfeccionismo pode ser apenas medo disfarçado, uma estratégia irracional para que o produto seja irrepreensível – como se isso existisse. E esse medo também poderia receber o nome de insegurança. Afinal, se eu conseguir deixar o texto preciso, se nada sobrar ou faltar, se todas as palavras forem escolhidas cuidadosamente, se todas as vírgulas e todos os pontos finais caírem nos lugares exatos, não poderão me criticar, certo?

Errado. As críticas positivas ou negativas estão muito além do meu domínio sobre a pontuação ou dos adjetivos que eu troco incessantemente. A verdade é que a aceitação do que eu escrevo independe das escolhas que eu faço, por mais cuidadosa que eu seja. Não importa o quanto eu edite o texto, ele ainda assim não será perfeito, porque perfeição é um substantivo que na arte anda em searas diferentes de outro chamado unanimidade. Muitas vezes, o que para muitos é genial eu mesma acho chato pra burro, e o que a mim parece o ápice da criatividade humana é recebido por outros com um muxoxo que me exaspera.

E eis que cá estava eu com esse impulso insano de editar até a completa exaustão quando, há pouco, alguém me enviou uma citação atribuída a Leonardo da Vinci: “Arte nunca é terminada, apenas abandonada”.

Pois agora faço questão de acreditar que da Vinci disse mesmo isso - e sistematicamente ignorar que pode ser uma daquelas mentiras da internet -, porque é nessa ideia em que quero me agarrar. Sim, se o que escrevo é uma tentativa de fazer arte, como tal ela não pode ser terminada: preciso abandoná-la. Em algum momento tenho que deixar que o texto se vá, que saia de minhas mãos, que pertença a alguém, e viver com o fato de que esse alguém vai fazer dele e com ele o que quiser. Até mesmo achar um lixo total.

Esse desprendimento é doloroso, o resultado é imprevisível, as chances de rejeição são enormes; é, ego, aceite, que dói menos. Esse é o preço de se meter a querer fazer arte.

Ninguém disse que seria fácil, mas também ninguém disse que não seria recompensador às vezes, uma coisa meio agonia e êxtase.

Hmmm, isso tem a ver com Michelangelo. Melhor parar, porque já comecei a misturar os italianos.



Imagem: "Monalisa", por PixArc, disponível no Pixabay.

5 comentários:

  1. Muito elucidativo, por causa desta angústia eu possuo um verdadeiro necrotério de contos que apodrecem esperando que eu os finalize e os jogue para o mundo.

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  2. Autoflagelo contista é saudável. Mas eu sempre concluo. Mas romance tenho 3 esqueletos na gaveta.

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  3. Eu não consigo nem começar a escrever, quem dirá terminar algo, Giselle. :/ Adoro seus textos, sempre falam mto comigo. Bjs

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