segunda-feira, 22 de março de 2021

Coluna Asas #47 - É uma guerra e estamos perdendo batalhas - (Evelyn Postali)

 



Meus pensamentos são estrelas que não consigo arrumar em constelações.

John Green


Afinal, é preciso mesmo ler os clássicos? Literatura clássica não é entretenimento? Literatura clássica e de entretenimento são diferentes de literatura comercial? O que diferencia uma das outras? Existe mesmo um limite? O livro de um blogueiro(a) tem menos valor do que o de um escritor iniciante ou experiente? Quem define o que é bom? Quem diz o que é "maior" ou "menor".

Perguntas demais para qualquer resposta definitiva.


Eu não as tenho. Tenho lá o meu gosto por esse ou aquele gênero, por esse ou aquele escritor. Faço escolhas de leitura, aponto esse ou aquele livro para amigos. É o que eu posso fazer.

Além disso, só posso dizer que livros são importantes. E você já deve ter ouvido essa frase surrada tantas vezes quanto eu paro para apreciar minhas suculentas no jardim, ou fotografar os passarinhos nas minhas caminhadas pelo interior desse pequeno lugar onde moro.

Seria enfadonho repetir, mas vamos bater na mesma tecla: todo livro carrega consigo as particularidades de uma determinada época e lugar, e também do próprio escritor(a), como pessoa de um espaço e tempo particulares. Ele reflete valores, modos de vida, de pensamento, do período no qual foi escrito, da sociedade de determinada época, e por isso, mas não só, tem a capacidade de nos colocar exatamente dentro daquele ponto específico. Livros são janelas para outros universos, para lugares onde nunca estivemos, para situações que não vivemos; são transportes nos quais embarcamos para juntar experiências inéditas, ou para nos fazer refletir sobre as coincidências que relatam com nossa própria vivência. São espaços de denúncia, de experimentação, de catarse, de diversão, de distração. Considerando isso, todo livro tem a capacidade de nos transformar, pelo pouco que seja. Podemos não notar de cara. A percepção da mudança se faz aos poucos.

Nesse sentido, quem pode dizer se um livro é bom ou ruim? Eu sei, eu sei. Eu já escrevi que não leio livro mal escrito – e não leio, se houver muitos erros de ortografia consecutivos ou as frases emperrarem com frequência a minha leitura. Sim, eu sou chata. – Mas, voltando à pergunta, que é ampla e de múltiplas respostas... Quem nos impõe a leitura de determinado alfarrábio? Quem pode apontar "esse livro é para você"? A escolha de um livro é simples e tem a ver com gosto, com hábito, com vivência, com conhecimento, com a vida que se leva, e com algumas outras coisas não menos importantes, mas determinantes. O que me desassossega, entristece e desacorçoa é o fato de o livro, como objeto físico ou digital, ter perdido a condição de necessidade básica nesse país, de não fazer parte da vida diária de uma parcela considerável da população brasileira, de não estar ao lado da cama, na mesa de cabeceira de muita gente. Livros, leitura, Literatura... Há um menosprezo (palavra forte, essa) por quem lê, pelo livro, por quem escreve, pela leitura, pelo conhecimento de forma generalizada. Há um desdém pela cultura também (tema para outro dia). O sujeito que lê tornou-se um "contraventor", alguém que está na contramão da maioria, quase uma afronta para a atual "normalidade"; um cara chato, que fala palavras difíceis ou desconhecidas, que aponta erros gramaticais, cheio de associações de ideias.  Há cura para essa situação? Não sei. Mais do que nunca me sinto Sócrates: só sei que nada sei.

Li um artigo, tempos atrás, onde o autor acreditava que os chamados ‘clássicos’ e, mesmo a literatura de entretenimento acabariam se perdendo em meio a ‘massificação literária’. Eu até concordo parcialmente: existem tantos títulos na Amazon, por exemplo, que, fica meio complicado saber quem é quem por lá. E títulos chamativos, com chamadas incessantes. A preocupação com a questão de livros "clássicos" desaparecerem se torna compreensível, considerando que o mercado editorial (aqui vai mais uma treta!) investe cada vez mais nos best-sellers, ou na literatura "vendável". Talvez essa ação tenha a ver com o agrado a um público cada vez mais alheio à realidade, mais imaturo, menos preocupado em interpretar, fazer relações, refletir sobre qualquer que seja o tema. Ou talvez tenha a ver com o ritmo do agora, com a velocidade que se impõe a tudo.

Outro ponto é que livros e leitura não são mais uma forma de lazer. Há muita outra atividade mais dinâmica do que isso. Para ler é preciso parar, silenciar, prestar atenção, interpretar. É preciso voltar-se para si, para a quietude de nós mesmos e mergulhar nas palavras escritas. Uma ação exigente em um mundo tão volátil.

Da indiscutível qualidade das obras canônicas para o que se classifica como de entretenimento (fantasia, terror, ficção policial, ficção científica, comics, não-ficção) há realmente um grande espaço vazio? E que distanciamento temos destas para a dita literatura comercial, "vendável", da moda? Será que esses livros, alguns considerados "cânones", por vezes criticados e excluídos da lista de importância (até por não ter mediadores competentes para disseminá-los) vão desaparecer? Existe mesmo embasamento para considerar a literatura de entretenimento uma literatura "menor"? Um best-seller tem menos valor que um Machado? Uma LeGuin pode se equivaler a um Hemingway? E a Kéfera? Onde entra a Kéfera nessa história, afinal?

Uma coisa é certa e sempre leva a outra. Leitores assíduos, de mera opinião, feito essa, ou de "calhamaços" literários, na faixa de idade na qual estiverem sempre encontrarão referências a algum García Lorca, ou Dostoievski, ou a algum livro considerado "saramago demais" ou "totalmente bukowski". Sempre descobrirão indicações sobre Asimov, ou Tolkien, ou a alguma passagem em algum "labirinto de fauno" ou muro de Sartre. A curiosidade move o gato, é o que dizem, e as referências cruzadas são a chave para a descoberta de escritores(as) e de obras, do gênero que for.

Tudo o que não se quer é preconceito, porque disso o mundo está cheio. A sociedade na qual estamos precisa de blogs e vlogs literários disseminando a leitura, motivando a leitura, divulgando autores "velhos" e iniciantes. Youtubers que falem de livros, podendo distribui-los gratuitamente, sim, mas que os leiam! Porque precisamos de leitores que ultrapassem a média de 1 (um) livro por ano, e críticos literários imparciais, sem criar ‘"bolhas" onde não entra "fulano, beltrano ou cicrano", divulgando ficção e não-ficção, novos e experientes escritores(as).  Essas classificações – literatura clássica, de entretenimento, comercial... – são discussões importantes, pertinentes? Sim, acredito que sim. Contudo, nesse momento, dar visibilidade e incentivo à leitura em um país com potencial para ir além, é o ponto de partida para uma mudança. 

Ou estou enganada?



Sugestões de leitura:

https://monografias.brasilescola.uol.com.br/educacao/a-literatura-cultura-massa.htm

https://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2012/07/23/alta-literatura-vs-literatura-de-entretenimento/

http://literaturaensinoeinfantojuveil.blogspot.com/p/literatura-deentretenimento-e-o-ensino.html

http://www.napontadoslapis.com.br/2012/04/importancia-da-literatura-de.html

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2110&titulo=Literatura_de_entretenimento_e_leitura_no_Brasil



Link para imagem: https://pixabay.com/pt/photos/livro-queima-fogo-4373283/


2 comentários:

  1. Excelente artigo! Concordo com você: esse é realmente o ponto de partida ara a mudança! Parabéns pelas colocações e pelo convite ao debate!

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    1. Oi, Giselle,
      Feliz pelo comentário. Gratidão pela leitura. Essas ponderações deveriam estar acima de qualquer outro ponto, não é? Mas sigamos arrecadando leitores, um aqui, outro aí. Trabalho incansável esse, mas necessário.

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