quarta-feira, 17 de março de 2021

Coluna Asas #46 - O outro Brasil se mostra esteticamente - (Eduardo Selga)

 



Sociedade é movimento, necessariamente. Não existe o estático, portanto, em se tratando dela, embora não raro as pessoas tenham esse entendimento no chão da vida cotidiana. Nalgumas vezes as movimentações são lentas — porém constantes — noutras dão origem a um fato que “de repente” mudam as coisas. Na verdade, neste segundo caso, não é algo que surge “do nada”, e sim resultado de um acúmulo de eventos. É como o vulcanismo: os Etnas e não explodem por acaso: antes de isso acontecer, há demoradas movimentações nas placas tectônicas.

Em função dessa ideia, é falsa a percepção de que “de repente” a Literatura Brasileira passou a ser povoada por autores negros e de outras periferias sociais, como autoras feministas, militantes ou não, e da literatura LGBTQIA+. O fenômeno não foi resultado de um súbito estalar de dedos ou modismo, e sim de camadas tectônicas das profundezas sociais que vinham e vêm se movendo desde que Pindorama foi desenraizada dos indígenas e rebatizada Brasil (palavra que remete à ideia de brasa, mas é pena sermos tão sem fogo). Como o fazer artístico não está divorciado dos movimentos ideológicos, históricos e sociais (muito ao contrário: é por vezes a versão estética deles), e o combate ao racismo ganhou no Brasil muita força nas últimas duas ou três décadas em função de fluxos ideológicos nacionais e mundiais, a literatura brasileira passou a ter maior contato com modos de escrever artisticamente que sempre estiveram em busca de luz. Ou melhor, passou a não ter como ignorá-los.

Não se pode esquecer: a literatura é uma das expressões artísticas do campo simbólico, e como numa sociedade de classes, a exemplo da nossa, absolutamente todos os espaços de existência são disputados, o movimento antirracista, cuja luta implica a necessidade de representação nos mais diversos níveis, conseguiu recuperar a importância histórica e estética de autores negros já falecidos, como é o caso de Carolina de Jesus, e visibilizar importantes escritores e escritoras, a exemplo de e Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Itamar Vieira Junior e Jarid Arraes.      

Quando analisamos as obras desses autores, percebe-se o quanto é posta em evidência a mecânica racista da sociedade brasileira, da qual são vítimas eles e seus irmãos de raça. Ao contrário de narrativas de autores brancos, nas quais a branquitude via de regra não é posta como fenômeno social, sugerindo que se as coisas são como são é por obra e graça da natureza, ao invés de um construto ideológico. Ao denunciar tal cenário, que pretende existir impunemente, a reação em sentido oposto é inevitável e se dá de diversas maneiras, do ataque gratuito e rasteiro a sofisticações retóricas que procuram esconder os reais motivos da insatisfação.

Uma das argumentações muito comuns quando a intenção é depreciar o texto antirracista, mas também se refere à literatura LGBTQIA+ e a feminina, é carimbar nele o pecado capital “panfleto”. É uma estratégia similar ao discurso que desumaniza o sujeito negro com vistas a justificar a escravização e todas as barbaridades perpetradas contra ele e todos de mesma raiz étnica: nega-se ao texto literário seu devido lugar e coloca-o noutra prateleira de modo a ser possível o ataque injusto.

Outra alegação, por vezes anexa à anterior, é que a literatura negra insiste numa separação social que “não existe”, colaborando, assim, para a “divisão do povo”. Faz parte daquela frase cínica, “somos todos brasileiros”. Cínica porque se pretende a ilusão de que a sociedade é monocromática, e muitos dos que dizem isso costumam saber perfeitamente o quão falso é esse pensamento. A igualdade de direitos e de cidadania são coisas inexistes no Brasil se considerarmos classe social, etnia e gênero. 
Estava rascunhando este texto quando a caixinha de som do computador deu voz à música escrita por André Abujamra, “Alma Não Tem Cor”, gravada, dentre outros artistas, por Chico César, Zeca Baleiro e pela banda Karnak. A interpretação do primeiro, sustida apenas pelo violão, é mais lenta que a do segundo, e esta é mais melódica devido aos outros instrumentos usados, e nesse ponto assemelha-se à versão da Karnak. A letra de Abujamra diz: 

Alma não tem cor porque eu sou branco
Alma não tem cor porque eu sou Negro

Branquinho, neguinho, branco, negão
Branquinho, neguinho, branco, negão
Branquinho, neguinho, branco, negão
Branquinho, neguinho, branco, negão

Percebam alma não tem cor, ela é
colorida, ela é multicolor
Azul, amarelo, verde, verdinho, marrom

Cê conhece tudo, cê conhece o
reggae, cê conhece tudo, né?!
Cê só não se conhece...

Ao nos depararmos com a parte inicial do primeiro verso, a sensação é de que a ideia a ser trabalhada na letra estará alinhada com o “somos todos”, de nossa suposta democracia racial e ausência de racismo. E de fato é o que ocorre, mas é interessante observar que se alma não tem cor é porque, inicialmente, “eu sou branco”, e depois porque “eu sou negro”, ligando etnia — e a ideia de racismo, portanto — a uma perspectiva individual ao invés de nos fazer lembrar que se trata de uma estrutura assim organizada. Logo depois temos “Branquinho, neguinho, branco, negão”, que nos remete à miscigenação “sem conflitos” e a um senso comum que mistura agressividade com carinho. É bem a dicotomia de nosso povo, que se morde e se assopra. E estamos também inseridos nos versos “Azul, amarelo, verde, verdinho, marrom”. Exceto a menção da última cor e pela não referência à branca, as outras se referem à bandeira nacional. O marrom é, de novo, a miscigenação, o sujeito “moreno”, “chocolate” e quejandos, uma saída semântica para escapar ao racismo que recai sobre as palavras “negro” e “preto”. E por que a cor branca não foi mencionada? Ora, é o padrão, o “normal”, não precisa ser citada por estar implícita. 

Vejamos agora parte da letra de “Eu Só Peço a Deus”, do grupo de rap Inquérito, cuja diferença de perspectiva é nítida. Não se vê o tom conciliatório, romântico e até jocoso da primeira letra. Enfrenta-se o racismo à brasileira.

Quer saber o que me move?
 Quer saber o que me prende?  
São correntes sanguíneas, 
não contas correntes
Não conta com a gente pra assinar seu jornal
Vocês descobriram o Brasil, né? 
Conta outra Cabral
É um país cordial, carnaval, tudo igual
Preconceito racial mais profundo que o Pré-Sal
Tira os pobre do centro, 
faz um cartão postal
É o governo trampando, Photoshop social

Voltando à literatura brasileira, parte significativa das narrativas das periferias sociais que estão conquistando seus leitores questionam esteticamente as estruturas que fabricam a centralidade e o espaço marginal. Com maior ou menor metáforas e símbolos. Nesse sentido, a postura do leitor está mudando. Aquele mero consumidor de livros, adepto da fruição e que se incomoda se porventura a narrativa lhe toque em seus preconceitos de estimação, tem diminuída a quantidade de opções de texto de qualidade apenas divertidos. Vê-se obrigado a, de algum modo, dialogar com suas convicções. Nem que seja com o intuito de ter assunto para gastar na roda de conversas com amigos, outros leitores, espaço em que certamente as bandeiras erguidas pelas periferias se manifestam.

Se há um Brasil que nunca foi devidamente representado por si mesmo, agora ele se manifesta. Porém, cabe uma reflexão: as ideias preconceituosas são fundamentais para o sistema de dominação prevalecer, e a indústria cultural, na qual se inserem as editoras, ajuda a difundir o pensamento que interessa à estrutura. Então, qual o motivo do espaço para a divulgação de ideias tão perigosas? É o lucro, mesmo correndo-se o risco de colaborar decisivamente para a conscientização das pessoas submetidas?

É que talvez não seja exatamente perigoso o que é divulgado por essa indústria. A engrenagem capitalista se reconfigurou há algumas décadas de modo a silenciar as demandas fundamentais das periferias da sociedade, que desnudariam a engrenagem, ao dar voz a questões que, por terem um caráter fortemente passional (o racismo, a LGBTfobia e o machismo, por exemplo), eclipsam a luta de classes, a mais-valia. Ao apostar na transversalidade, o essencial fica de fora. E o transversal, a depender da habilidade de quem controla os cordões, é negociável, mantendo-se a essência fétida da dominação.


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