segunda-feira, 8 de março de 2021

Coluna Asas #41 - Protagonismo feminino em 4 HQs nada convencionais - (Fil Felix)


 

Hoje, 8 de março, é comemorado o Dia Internacional da Mulher! A data busca lembrar a luta das mulheres por igualdade de direitos, trabalhos e condições de vida melhores que tomou forma no início do século XX e bastante força na década de 1960 com o Movimento Feminista. Apesar de ter se transformado numa data bastante comercial, nos últimos anos vimos uma retomada no debate em torno das questões de gênero, principalmente em meio a tanto retrocesso que vem acontecendo no país e no mundo.

Para o artigo desse mês aqui na coluna, pensei em trazer algumas mulheres importantes na indústria dos quadrinhos, mas lembrei que já fiz um texto semelhante há muito tempo! Era o “Top 15 Mulheres nas HQs”, que escrevi pro meu blog em 2014 e, revendo hoje em dia, percebo que faria muitas mudanças na lista se eu fosse atualizá-la, tanto por ter surgido muitas outras personagens mulheres nos últimos anos e que merecem destaque, como a Poderosa Thor, quanto pelo discurso: mudei bastante meu ponto de vista de lá pra cá. Sem contar que autoras mulheres também estão tendo maior espaço, algo que até 10, 15 anos atrás era mais raro na indústria dos quadrinhos. E não sei se fazer outro Top, com dinâmica de valor (uma merece mais que a outra, etc), faria sentido hoje.

Mesmo assim, ainda gostaria de trazer o tema para nosso artigo. Então decidi puxar na memória histórias que li e que traziam um protagonismo feminino, mas que fugissem do tradicional, pra gente não chover no molhado e ser só mais um texto com escolhas óbvias pela internet. Reuni 4 quadrinhos criados entre 1984 e 1993, todos já lançados no Brasil, que abordam o feminismo direto ou indiretamente, mas de maneira nada convencional e que até mesmo para os padrões de hoje são consideradas alternativas demais. Duas delas fogem do nicho de super-herói e, mesmo as outras duas, apesar de trazerem heroínas e vilãs, subvertem totalmente o gênero. Vamos as sugestões de leitura, por ordem de lançamento:


Rê Bordosa: do Começo ao Fim

(publicação original: 1984 a 1987)

Angeli é um dos maiores cartunistas do Brasil, tendo criado figuras como Os Skrotinhos, Bob Cuspe e Wood & Stock, mas uma de suas criações mais emblemáticas foi Rê Bordosa, a velha junkie. Nascida em 1984 nas páginas do jornal Folha de S. Paulo, logo migrou para a revista Chiclete com Banana e ganhou notoriedade pelo país. E Rê era tudo, menos a típica protagonista feminina! Ela adorava um bar, vivia com ressaca, era viciada em álcool, cigarro e outras drogas, saia com homens e mulheres e, entre uma página e outra, refletia sobre a vida. Nascida na década de 1980 e em meio aos primeiros indícios do grunge, do pós-punk e da new wave, Rê se tornou o retrato de toda uma geração. Suas histórias falava abertamente de questões como feminismo, padrões de beleza e sexualidade, além de colocá-la em situações que até hoje são consideradas tabus, como o aborto e o HIV.

Rê Bordosa teve suas tiras publicadas entre 1984 e 1987, quando Angeli decidiu por matá-la, criando assim um momento marcante na história das tiras brasileiras. Além de trazer a metalinguagem, pois em várias tiras a Rê fugia do próprio Angeli, o autor também estava cansado de escrevê-la e temia se transformar num cartunista “de um trabalho só”, pois o sucesso da personagem era tanto que ele se sentia praticamente forçado a continuar criando histórias para ela. Tanto que o caso “morte da Rê Bordosa” é retomado sempre que o Angeli é entrevistado. Alguns anos mais tarde, em 1995, ele chegou a criar o especial Memórias de uma Porraloca, uma série de tiras que narram os casos perdidos da velha junkie, mas sem ressuscitá-la! Rê Bordosa foi, sem dúvidas, uma figura à frente de sua época, discutindo de maneira leve e bem humorada, mas sem deixar o lado crítico e ácido de lado, muitos dos temas que estão em pauta hoje. O quadrinho que indico aqui é a edição Rê Bordosa: do Começo ao Fim, lançado em 2006 pela editora L&PM num formato pocket e que reúne quase todas as tiras publicadas entre 1984 e 1987, além de trazer o especial Memórias de uma Porraloca. Vale muito a pena!


Elektra Assassina (1986)

Em meados dos anos 1980, o gênero de super-herói passou a ganhar HQs que fugiam do convencional, abordando temas mais sérios e complexos, muitas até mesmo para o público adulto. Entre os títulos mais famosos dessa leva dos anos 1980, temos a minissérie Elektra Assassina: publicada originalmente pela Marvel em 8 edições entre 1986 e 1987, logo ganhou versões encadernadas (compilando a história completa) com uma delas saindo aqui no Brasil em 1989 pela editora Abril (e mais recentemente, ganhou reedição pela editora Panini). Com roteiro do Frank Miller e desenhos do Bill Sienkiewicz, trata-se de uma HQ que beira o experimentalismo e traz a ninja assassina Elektra Natchios num contexto e estilo que redefiniram sua trajetória. Num tom surreal e com uma arte psicodélica, a leitura é considerada bastante difícil (e realmente é!), densa e complexa, apesar da história relativamente simples: Elektra foge do clã Tentáculo e acredita que a Besta, a criatura que eles idolatram, esteja planejando possuir um candidato à presidência dos EUA; ela parte, então, numa jornada para impedir que isso aconteça, matando quem entrar no seu caminho. Apesar da Besta já ter sido mostrada em quadrinhos recentes, aqui ela é quase uma força da natureza, operando em segredo e nas sombras, ganhando um ar bem mais diabólico.

Um ponto interessante é que a Elektra não é a heroína tradicional, tampouco a vilã convencional. Ela age de maneira fria e calculista, mas sem perder o carisma, algo que é bastante comum em personagens masculinos, que fazem a vez do anti-herói como Deadpool e Justiceiro, mas que é difícil de vermos com personagens mulheres. O roteiro do Miller é bastante afiado e ironiza vários clichês da indústria dos quadrinhos, enquanto a arte do Sienkiewicz é caótica e belíssima. E apesar de toda a parafernália visual e excesso de informação, Elektra Assassina vai aos poucos se revelando uma trama complexa, com flashes do passado da ninja, um histórico de treinamento e abusos e suas reais motivações. Um clássico dos quadrinhos, que super recomendo a leitura. Mas fica a dica: leia com calma.


 Mulher-Gato: a Origem (1989)

Em 1989 a DC publicou uma minissérie em 4 edições chamada simplesmente de “Mulher-Gato” (Catwoman, no original em inglês), que saiu no Brasil nesse mesmo ano pela editora Abril. A autora Mindy Newell foi chamada para escrever o que seria a primeira grande história de origem da Selina Kyle, a vilã Mulher-Gato. E ao lado do desenhista J. J. Birch, ela criou uma narrativa tão densa e real que, anos mais tarde, foi suavizada por outros autores que abordaram a personagem. Na trama, Selina é uma mulher que sofreu diversos abusos durante a infância e agora precisa sobreviver como prostituta nas mãos do gigolô Stan, até o momento em que é espancada por ele e jogada nas ruas. Fragilizada e longe de Stan, Selina passa a treinar com o lutador Pantera, buscando maior independência e segurança, gerando uma revolta em Stan, que acaba por sequestrar sua irmã, a freira Maggie Kyle.

Por ser uma história de origem, não temos aqui a Mulher-Gato que todos nós conhecemos, de personalidade forte, decidida e calculista. Pelo contrário, Selina é uma mulher sensível e frágil, mas que busca inspiração na figura do Batman para fazer justiça com as próprias mãos e resgatar sua irmã das garras de Stan. É assim que ela recupera uma antiga fantasia fetichista de gata e, com alguns ajustes, se torna sua própria heroína noturna. É, literalmente, seu renascimento. E a Mindy Newell desenvolve a personagem numa crescente, ganhando cada vez mais maturidade e segurança, mas ainda demonstrando a ingenuidade desses primeiros anos. Sem dizer que abordou várias questões que giram em torno do status quo da Mulher-Gato, como a prostituição, as ruas e os abusos, que com o passar dos anos foi bastante suavizado por muitos autores e até mesmo hoje não é comum vermos esses termos serem tratados abertamente nas revistas.


 

O Extremista (1993)

No início dos anos 1990 a DC decidiu criar um novo selo dentro da editora, o selo Vertigo, para reunir e publicar títulos que fugissem do padrão, com histórias mais realistas e até mesmo adultas. E O Extremista foi uma das primeiras minisséries publicadas nesse formato. Escrita pelo Peter Milligan, que é um dos meus autores preferidos, e com desenhos do Ted McKeever, foi lançada em 4 edições em 1993, saindo no Brasil em 1999 pela extinta editora Metal Pesado. E é, talvez, a sugestão mais emblemática (e desconhecida) desse artigo! A trama, narrada a partir de diversas perspectivas, nos apresenta a Ordem: uma rede de clubes sexuais, cujos membros realizam os mais variados fetiches, porém, caso algum membro saia do controle e quebre alguma de suas regras, terá que enfrentar o Extremista. O roteiro do Milligan é genial, pois o Extremista não é uma pessoa, mas sim uma figura de poder e medo dentro da Ordem, um traje que é passado de pessoa para pessoa.

Judy Tanner é a mulher que está vestindo o Extremista no momento, matando em nome da Ordem e, paralelamente, buscando o assassino do seu marido. Além de ser uma trama recheada de reviravoltas, sua maior qualidade é retratar e discutir os limites morais que cercam as pessoas, além de tocar em diversas feridas. Ele nos questiona sobre as máscaras que usamos socialmente, sobre o que faríamos sob um disfarce ou o anonimato. Judy, por exemplo, é uma mulher que mal consegue falar sobre sexo com as pessoas, que esconde até mesmo a cor original dos seus cabelos, com medo de não ser aceita, interpretando o que seria uma mulher ideal do ponto de vista dos outros. Mas quando veste o traje do Extremista, ela entra em êxtase e curte cada momento de libertação e satisfação, se entregando aos desejos. O conflito surge quando ela precisa voltar pra casa e tirar o traje, quando passa a se questionar quem é a verdadeira Judy. Uma história à frente de seu tempo, que já apresentava ao leitor temas que só ganharam maior destaque nos últimos anos, como identidade de gênero para além do masculino e feminino e o estupro de pessoas inconscientes. A arte do McKeever é bastante gráfica, torta e frenética em muitas partes, dando uma maior identidade à série, assim como também não há censura. Um outro ponto que dá maior profundidade a O Extremista é que a protagonista, Judy Tanner, apesar de flutuar entre estar com e sem o traje, não é uma protagonista comum e sem defeitos, o modelo ideal que o leitor deve se identificar. Pelo contrário, num trecho, por exemplo, Judy demonstra temer um homem negro, deixando escapar seu lado racista e colocando em cheque a figura de boa samaritana que acreditava possuir. Enfim, uma excelente leitura.

Então, para essa semana de comemoração do Dia Internacional da Mulher, fica a sugestão dessas quatro HQs que fogem totalmente do padrão feminino que costumamos ver nos quadrinhos. E apesar de antigas, todas trazem uma maturidade e liberdade que é rara até mesmo para os dias de hoje! Por décadas as super-heroínas e super-vilãs foram retratadas de maneira extremamente fetichista, a começar pelo visual, que muitas vezes não passa de um maiô. Mesmo essas HQs sugeridas possuem traços disso, em especial a Elektra. Felizmente, essa visão vem sendo aos poucos quebrada tanto pela Marvel quanto pela DC, que são as duas maiores editoras do mercado, nos brindando com maior protagonismo feminino tanto dentro das histórias, quanto fora delas com autoras e ilustradoras tendo mais espaço, abandonando os uniformes cavados e usando outros mais usuais.

Tanto Rê Bordosa quanto Elektra Assassina tiveram reedições recentes e não são difíceis de encontrar para comprar. Já O Extremista e Mulher-Gato nunca foram relançados e só são encontrados em sebos. Mas, como a internet está aí, numa boa procurada vocês conseguem achá-las para download. E para quem quiser saber um pouco mais, lá no meu blog eu já fiz uma resenha com mais comentários e imagens de cada uma delas:

Rê Bordosa (tiras publicadas originalmente entre 1984 e 1987 e especial de 1995). Compiladas em formato pocket em Rê Bordosa: do Começo ao Fim (L&PM, 2006) e no encadernado Toda Rê Bordosa (Cia. das Letras, 2012).

Elektra Assassina (Elektra Assassin #1-8, Marvel, 1986). Publicado no Brasil em encadernado homônimo pela Abril (1989) e Panini (2005 e 2016).

Mulher-Gato (Catwoman #1-4, DC, 1989). Publicado no Brasil em encadernado homônimo pela Abril (1989).

O Extremista (The Extremist#1-4, Vertigo, 1993). Publicado no Brasil nas revistas O Extremista 1# e #2 pela Metal Pesado (1999).

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