sábado, 27 de fevereiro de 2021

Coluna Asas #38 - Menor - (Giselle Fiorini Bohn)

 


Eu dou muitas gafes. Já passei vergonhas de todos os tipos, das mais prosaicas, do tipo tombo no meio da rua, às mais refinadas, como chamar um padre, Pfarrer em alemão, de Pfeffer, que significa “pimenta”. Foi realmente uma picante troca de palavras.

Mas entre as maiores das minhas gafes estão as que eu chamo de “literárias”; ah, essas são muitas, e das mais constrangedoras. A última delas foi terrível: quando inquirida se a homenagem a uma certa escritora muito famosa me parecia justa em face de suas posições políticas do passado, eu disse que deveríamos deixar que ela mesma se explicasse. Seria uma resposta bem sensata, se minha interlocutora não respondesse “Mas ela já morreu faz tempo!”.

Sim, eu sou essa pessoa. Mas ao menos aprendi minha lição: não finjo mais que sei quem é Elizabeth Bishop, não direi que meu livro favorito é algum do Machado, nem que adoro Virgínia Wolf. Faulkner, Joyce, Tolstói ou Rosa são nomes no meu universo como Caravaggio, Picasso, Monet ou Tarsila: sei quem foram, o que fizeram, onde viveram, por que são importantes, e só.

E essa confissão – dolorida, não vou negar – me traz ao cerne deste artigo: o quão importante é conhecer os clássicos? Se eu quisesse impressionar, diria “extremamente importante”, mas seria hipócrita. Consigo, porém, imaginar que muito teriam contribuído para a minha formação, afinal, provavelmente eu escreveria melhor se tivesse lido Hemingway ou toda a obra de Clarice. Ou talvez não melhor, mas diferente; sim, diferente. Porque escrever bem, para mim, é muito mais do que emular estilos ou aprender palavras novas, em conceitos difíceis de explicar como “espelhamento” ou “diegese”. Talvez nem mesmo devesse usar o termo “escrever bem”; o que é isso, no fim das contas? Existe, será, o “escrever mal”? E se existir, importa?

Escrever sempre é bom, e não é sequer preciso que alguém leia o que escrevemos. Escrever é um exercício para a alma, e ler os clássicos pode, sim, ser um complemento valiosíssimo, um suplemento vitamínico para quem se sente anêmico; isso, sim, eu compreendo. Mas, para mim, nada disso tem relação com o âmago da atividade: o impulso. Escrever é um anseio que despreza nossa bagagem literária e nossos anos de estudo. Escrever é uma experiência tão ímpar e pessoal que pode ser realizada lindamente tanto por um diplomata quanto por uma catadora de lixo. Se escrever é colocar em palavras o que só existe no pensamento, na imaginação, nas entranhas, há, será, como fazer isso de um jeito errado? 

Venho pensando muito em minha escrita. Sempre me perguntam quem são minhas referências, quais os livros de minha vida, quem me inspirou, e eu nunca sei o que responder. Minha escrita tem tão poucas influências que sequer consigo imaginar como seria se houvesse modelos e estilos distintos dançando em minha mente. Eu aprendi a escrever com a coleção Vagalume, os textos da série Para Gostar de Ler e uma enorme coleção cheirando a mofo de A. J. Cronin, de que ninguém nunca ouviu falar. Não é glamoroso, não impressiona nas rodas de conversa, não empolga meus entrevistadores. Mas essa é a verdade, sem firulas. 

Isso faz de mim uma escritora menor? Não sei. O que sei é que vou seguir escrevendo o que vem do fundo do meu espírito ou do raso da minha existência e lendo o que eu quero, deixando-me encantar sem rótulos. E o mais importante: nunca mais fingirei saber quem foi Elizabeth Bishop. Isso, eu garanto, realmente não farei mais.

5 comentários:

  1. Giselle,
    Creio que escrever é o que importa, mas para mim, é um exercício de conhecimento tanto da língua quanto de mim mesma. E, escrever bem, para mim, é ser entendida, é chegar ao ponto onde quero. Linguagens diferentes existem porque somos diferentes. O que me incomoda muito é a falta de humildade de determinados escritores quanto à própria escrita. No meu entendimento, não é possível querer ser escritor - e aqui há muito o que dizer - sem ter como objetivo encontrar a própria linguagem, entendendo os pormenores da língua onde se aprendeu. O que não aceito é essa arrogância de alguns em 'enfiar goela à baixo' livros que não tenham um mínimo de cuidado com aquilo que nos encanta, que é a língua materna.
    Você escreve muito bem, é pessoa atenta aos detalhes, à construção textual. É evidente no seu escrever. Eu estou evoluindo.
    Coincidência ou não, meu próximo texto é sobre esse assunto. Alta literatura, literatura de entretenimento, baixa literatura, esses termos que são imposto para nós, como se fosse preciso separar o joio do trigo. Essa não é a questão mais importante nesse momento, mesmo eu dizendo que não consigo ler um texto mal escrito.
    A evolução na escrita acontece com a maturidade intelectual, com as leituras, com o conhecimento de mundo, com as relações construídas a partir das observações - porque pretender escrever, sem toda essa bagagem, é mergulhar no vazio. Tudo é sempre uma questão de tempo, mas também é questão de quem desbrava esse tempo.
    Se for consolo, não sabia quem era Elizabeth Bishop até a polêmica ser levantada. Na literatura existem algumas tretas ruidosas. Eu desconhecia a maioria. Conhecia a do Caio Fernando Abreu com a Rachel de Queiroz. E vamos seguindo. Evoluindo. Aprendendo.
    E sim. É preciso escrever o que está lá, no fundo do espírito, o que nos toca a alma, o que grita para nós, mesmo se outros não escutam. É por isso que escrevemos.
    E sigamos.

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  2. Giselle, você escreve com seu coração, com a sua alma. Você consegue passar para o papel tudo o que observa, sente e escuta de uma maneira tão espetacular, que fico sempre de boca aberta lendo seus textos.
    Acho que o talento de um (a) escritor (a) não está atrelado à quantidade de clássicos que leu e vc é uma prova disso.
    Continue fazendo o que faz pq vc inspira muitas pessoas, por exemplo, eu.
    Beijos. Karem

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  3. Adorei, Giselle, a escrita pela escrita. Concordo, tudo o que somos e vivemos, não apenas o que lemos, ou quem lemos, influencia a escrita.

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  4. Olá, Giselle! Seu texto me lembrou de uma gafe que cometi também, aliás, gafes que vira e mexe eu cometo. Um dia, num bar, estávamos todos conversando e pronunciei uma palavra errada (que pra mim estava certa) e morreram de rir, principalmente porque esperavam que eu não cometesse "tais erros". E eu to sempre falando alguma palavra errada, conjugando alguma frase errado tbm e vida que segue. E acho que essa cobrança em relação aos clássicos é algo semelhante. Ainda mais hoje em dia, parece que você precisa conhecer e saber debater de tudo um pouco! Quando na verdade o tempo é curto e você precisa passar fazendo algo que te agregue, lógico, mas que você também sinta prazer nisso.

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  5. Adoro as suas articulações sobre a escrita aqui. Eu poderia assinar embaixo e dizer eu também sou a autora dessas palavras. Como alguém que foi treinada como professora de literatura, acho um completo desperdício que não vejamos a literatura pura e simplesmente como uma experiência do sentir. Entrar em contato com o outro é o que eu procuro quando escrevo e é também o exercício que faço quando reconheço um livro que julgaria bom “me toca”. As mudanças recentes com a entrada de outras editoras no mercado editorial têm permitido que tenhamos acessos a vozes mais diversas e isso enriquece nossas experiências. Com relação a você, especificamente, tudo o que tenho a dizer é que adoro cada vez mais. ❤️

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