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Coluna Asas #23 - Escrever por escrever - (Catarina Cunha)

Eu poderia deixar esse título como frase de efeito no final. Colocando assim, de cara, torna o texto óbvio. No entanto levei em consideração...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Coluna Asas #31 - Nesse ínterim - (Catarina Cunha)

 


Tenho uma teoria de que existem duas formas da arte nascer: de dentro para fora ou de fora para dentro. Nem sei se esta teoria é minha e não possui lastro acadêmico, logo são meras elucubrações. Eu poderia citar alguns representantes de minha caixinha de estimação, no entanto estaria rotulando o processo criativo de alguém, o que seria no mínimo moderno, mas muito chato. 

Um artista plástico, escritor ou músico que consegue criar em completo isolamento, sem interagir ou observar a vida lá fora é um DENFO, dentro para fora. Não se importa se chove, neva ou se o Armagedom acampa em seu jardim tocando as trombetas do apocalipse zumbi. Ter material físico e zona de conforto é o suficiente para o troço, vindo das catacumbas das sinopses mentais do DENFO,  borbulhar do estômago ao cérebro e ser descarregado em voluptuosos enigmas sensoriais. Costumam ser organizados, concentrados e incansáveis. Uma baba de inveja escorre aqui no canto da boca. 

E temos os  FODEN, que criam de fora para dentro. Passam séculos pensando sobre o tema e precisam, como ervas daninhas, de outros seres para se alimentarem. É invasivo e  curioso com a vida alheia, mentiroso e fofoqueiro consigo mesmo. Lê de clássicos a bula de remédio com interesse profundo e dedicação rasa.  Mistura música ouvida no rádio com cenas do cotidiano ou fragmentos de diálogos. Mantém o coração escancarado e, invariavelmente, sofre com os dramas do mundo. Com a miséria humana, com o risco iminente de queda do ninho de rolinhas na ventania, com a árvore de raízes sufocadas por cimento na calçada e com a formiga desatenta esmagada por um passo. Produz aos pedaços e se a porta do vizinho bater, já basta para o FODEN esquecer completamente o que estava fazendo e resolver estender a roupa,  dar uma passeada pela rede social ou jogar na internet. Nesse ínterim,  descobre que o que estava criando não era nada do que queria e resolve mudar tudo, ou melhor, começar outra coisa, outro tema. Depois de muito autoflagelo consegue soltar uma bola de pelo, divulga e aguarda o bombardeio.  Engulo a baba. 

Será que não tem meio termo, quem consiga conciliar seu mundo interior com o exterior e,  efetivamente, traduzir isso em arte? Claro, existem os DEUSES, aqueles monstros destruidores de parâmetros, revolucionários e doidinhos de pedra. Pescam no oceano e criam um aquário pessoal único; mas que sofrem tanto quanto todos nós para criar. 



(Ilustração: Intervenção urbana em parede de Porto Alegre. Foto de Sammy Angeli)


2 comentários:

  1. Catarina, adoro sua perspicácia ao escrever. Você produz sínteses únicas.

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  2. Oi, Catarina! Adorei essa divisão que fez. Acho que me encaixo mais nos FODEN, inclusive durante essa quarentena eu quase não tive pique pra escrever, faltou inspiração (por ter que ficar socado dentro de casa).

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