segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Coluna Asas #25 - Sobre coisas que fazem a gente querer desistir e as que fazem a gente querer continuar - (Bia Machado)


No início de 2020 havia muitos planos e sonhos também. 

A Caligo tinha intenção de fazer uma divulgação maior do seu trabalho aqui mesmo em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Desde o início do seu funcionamento, era coisa comum e até natural ir para São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente, por causa da maioria dos autores estarem nessas cidades. Fui várias vezes para esses destinos e também fomos para Porto Alegre e Brasília. Desde o começo a gente sabia que a dificuldade de vender livros aqui, na própria cidade, era muito maior. Dá para contar nos dedos o número de livrarias na capital do Mato Grosso do Sul. Quando procuramos algumas para vender nossos livros, disseram que cobrariam 40%, ou até mais. E isso afinal é mais do que o frete para enviar um livro a qualquer lugar do Brasil, levando-se em conta um valor de capa de R$ 38,00. Sem condições!

Com a pandemia, o jeito foi tentar sobreviver na internet, sem dinheiro para custear grandes divulgações e para isso contando com os compartilhamentos daqueles que conhecem o trabalho da editora. É muita gratidão, podem ter certeza disso. Não sou a favor do leitor se sentir obrigado a comprar tudo que é livro de autor ou autora nacional, de comprar "só para ajudar, só porque é amigo". Nada disso. Eu percebo quando alguém compra um livro meu tendo essa intenção. Percebo porque quando alguém gosta do que você escreve compartilha a experiência de leitura de forma muito espontânea, sem você precisar pedir, ou vêm lhe dizer como foi a experiência de leitura. E alguns compram e nunca mais te dizem nada sobre o livro, se leram ou não. Não, por favor, não faça isso. Compre apenas se quiser, para realmente ler. E se gostar, compartilhe, diga a todos nas redes sociais.

Muitas vezes ensaiei em desistir de vez desse caminho. Vezes em que vi a literatura nacional ser diminuída, em comparação ao que vem de fora. Sim, eu me criei lendo muitos autores estrangeiros, mas nunca larguei daqueles brasileiros e daquelas brasileiras que escreviam e escrevem tantas coisas maravilhosas, alguns com os quais aprendi a ser leitora, com quem aprendo até hoje, a cada livro deles que ainda tenho o prazer de descobrir. É bom ter sempre algo a descobrir do autor ou autora do qual gostamos.

Hoje mesmo me desanimei ao ler o post de um cara que se diz escritor perguntando sobre os livros de certo clube de leitura. Esse clube envia para as pessoas livros em grande maioria de autores estrangeiros e você não tem a mínima ideia do que irá receber. Segundo ele, vai dar de presente uma assinatura da esposa. Nada contra, qualquer um faz o que acha melhor da sua vida e do seu dinheiro, mas por que não comprar livros de autores nacionais, que estão batalhando tanto quanto ele, que escrevem tão bem (ou até melhor, dependendo) quanto esse estrangeiro aí que nem sequer se sabe qual será?

Tenho comprado livros de autores contemporâneos de outras editoras: Patuá, Penalux, Monolito, Verlidelas, entre outras. E de muita gente que eu não conhecia. Esses livros têm sido gratas surpresas. E tantas outras empresas chamadas de "independentes", como a Caligo. São livros com conteúdos que nada deixam a dever aos tais "grandes nomes" e publicações tão bem feitas quanto aquelas realizadas pelas classificadas como "grandes" editoras.

Outro dia também recebi a resposta de que um clube de leitura não vai adotar um dos livros da Caligo por eles não estarem em livrarias físicas. E não estão mesmo. E nem estarão, enquanto eu tiver que pagar quase metade do valor deles para que a livraria física os venda. Aliás, eles nem fazem questão na venda de livros publicados por editoras como a nossa e nunca, NUNCA, darão o mesmo destaque a eles dado para livros de grandes editoras, caso eu não pague uma pequena fortuna (qualquer valor que me possibilitaria imprimir 100 exemplares de um livro de 120 páginas ou até mais para mim é, sim, uma pequena fortuna). Mas os livros em estoque estão lá, na loja virtual da nossa editora, prontos para serem enviados a quem os comprar, bem embalados, com registro e com seguro. Uma pena que isso não seja suficiente. Nem mesmo saber que os livros que editei não perdem em nada no quesito qualidade para qualquer um dessas tais editoras "grandes", no que se refere a conteúdo, além de capa, diagramação, revisão. Claro que não teríamos como imprimir aquelas luxuosas edições de colecionador, capa dura, encadernação ricamente ilustrada etc., isso é mesmo só para quem pode imprimir uma edição de 5.000 exemplares e vender em todo o canto do Brasil. Nessa questão somos muito realistas.

Para 2021 fizemos, é claro, muitos planos e alguns projetos já estão em andamento. E esses planos e projetos precisam continuar e virar realidade, precisam se concretizar, para que apesar das coisas chatas que nos aparecem vez ou outra, a gente continue. Porque queremos continuar, para que vejamos algum sentido nisso, como por exemplo a edição física do "Diário Poético da Quarentena", que vai ao prelo dentro de no máximo 15 dias. Também a antologia "Outros Brasis da Ficção Científica", organização de Davenir Viganon, prevista para lançamento em março, com um pessoal que escreve FC de forma primorosa. Espero que venham outras, tantas outras sobre o tema, para dar espaço a muita gente que escreve nessa temática. Porque FC não é só entretenimento, como certos prêmios a classificam, talvez por não conhecê-las a fundo.

Para o segundo semestre estamos planejando uma segunda antologia do coletivo feminino "As Contistas", pois nesses primeiros seis meses do ano as participantes do grupo estão envolvidas em outro projeto, que eu torço para que se concretize, de uma forma ou outra. Há alguns outros projetos ainda em segredo, só aguardando a melhor hora para que todos saibam.

Nesse ano faremos a reimpressão de alguns livros que já estavam esgotados, como o "Pretérito Imperfeito", de Gustavo Araujo, que chegou esses dias da gráfica e já está disponível na loja, assim como o livro de contos "A Linha Tênue", de Rubem Cabral, também a antologia "Os Livros Apócrifos" e as antologias "Nada Elementar" e "Atemporal", já quase esgotadas. Uma segunda edição de "Redrum", com nova diagramação e provavelmente nova capa.

E... e-books! Do coletivo "As Contistas", das antologias "Os Livros Apócrifos", "Nada Elementar", "Atemporal", de outros que vierem.

É muita coisa para um ano só, ainda mais para uma "pequena" editora? Provavelmente sim. Não daremos passos maiores que as pernas e nem teríamos como, aliás. Mas vamos, no passo que é possível, tendo a missão maior de divulgar escritores nacionais, autores e autoras que nos deixam orgulhosos por terem em algum momento confiado no trabalho da Caligo para dar vida aos seus escritos. Para dar asas às suas palavras.

Que seja um feliz 2021, com muito trabalho e muitos livros.

2 comentários:

  1. Muito bom, Bia. Você tocou exatamente nos pontos que, não só os que escrevem, mas leitores atentos percebem.
    A visibilidade e "preferência " na hora de adquirir um livro - sem falar nas muitas questões que envolvem dinheiro e tornam a edição um ato heróico, aqui no Brasil.
    E salve! Tenho praticamente todos os livros da Caligo, e digo, não são para enfeitar, são realmente agregadores.
    Boa sorte, sigamos!!

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    1. Oi, Renata! Vamos seguir! No Brasil é tudo mais difícil, parece, principalmente lidar com cultura.

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