segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Coluna Asas #20 - Em um Brasil fantástico, pouca fantasia se escreve? (Evelyn Postali)

 


Sempre me pergunto o porquê eu escolher, dentro da Literatura, além da Poesia, livros de Literatura Fantástica. E sempre encontro a mesma resposta: encantamento.

Quando eu era criança, Julio Verne engrenava a fantasia: Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da Terra, Da Terra à Lua... Foi também com os contos de fada que moldei esse entusiasmo pela magia, bruxas e fadas, seres fantásticos, criaturas encantadas. Mais velha, aquela máquina do tempo de H. G. Wells ganhou espaço junto da saga de Perry Rhodan. Com o antigo Círculo do Livro, veio Ursula K Le Guin, Peter Straub, Marion Zimmer Bradley, Michael Ende, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Gorge Orwell. Assim, fui colecionando esse amor por narrações de mundos distantes, ora de terror, ora de mágico-sobrenaturais, ora em universos muito além dessa curva da galáxia, recheados de personagens estranhos e fascinantes, tão bem ajustados que nos remetem a quase certeza de sua possível existência.
Se meu interesse pelo universo da fantasia, terror e ficção científica – subgêneros da Literatura Fantástica – começou muito cedo, meu encantamento pelo folclore brasileiro, pelos mitos e lendas dessa terra tupiniquim, é recente. Não completou uma década.
A menos de dez anos, as criaturas do universo fantástico brasileiro tomaram uma dimensão muito diferente daquela da infância, das histórias de Monteiro Lobato. Ganharam corpo e forma distintos com Simões Lopes Neto, Câmara Cascudo, Inglês de Souza, Felipe Castilhos, Ian Fraser, Christopher Kastensmidt, e outros, porque entrelaçam os personagens folclóricos em seus roteiros, ajustados de tal forma, a criar narrativas criativas e coerentes. 
E quem não conhece alguma história fantástica? Quem nunca ouviu falar no Saci, no Curupira, na Salamanca do Jarau, no Boitatá, ou de algum objeto mágico, ou lugar? Será que ainda existe alguém nesse Brasil que não ouviu falar de algum desses ou de outros seres fantásticos do nosso imaginário popular folclórico?
Tais personagens que engendram o pensamento fantasioso compõem o amplo e valioso conjunto de histórias contadas ao longo de anos, ou recentes – as lendas urbanas –, explicando fatos, relacionando acontecimentos, despertando medo, assombro, curiosidade.
Em um Brasil fantástico, pouca Fantasia se escreve? A resposta para a pergunta é não.
Autores como Cristina Lasaitis (Fábulas do Tempo e da Eternidade), André Vianco (Sétimo), Eduardo Spohr (A Batalha do Apocalipse), Ana Lúcia Merege (O Castelo das Águias), Eduardo Kasse (O Andarilho das Sombras), desenvolvem narrativas cativantes, com roteiros bem estruturados onde protagonistas e vilões, anjos e dragões, feiticeiros e guerreiros de capa e espada, perambulam entre nós, ou em lugares mágicos de tempos sobrepostos, e abraçam os leitores ávidos por aventuras muito além da realidade cotidiana.
Porém, se a pergunta for “Em um Brasil fantástico, pouca Fantasia se escreve com base no folclore do país?”, a resposta é sim.
Então, por que em um país recheado de mitos e lendas a literatura não dialoga com eles? Por que há um preconceito resistente para com o nosso folclore, para com os nossos seres fantásticos? Por que escritores buscam em terras nórdicas, americanas, europeias, asiáticas, os roteiros para sagas e longas narrativas de ação?
Talvez não haja uma única resposta.
O desconhecimento nos leva por caminhos distantes, ignorando aquilo que está bem pertinho de nós e carregado de detalhes riquíssimos. Talvez, também, porque quando falamos em Folclores, em lendas folclóricas, nos remetemos a um ensino escasso desse conteúdo, citando apenas Monteiro Lobato. Sem entrar no mérito escolar e sem mencionar questões religiosas ou preconceitos já estruturais, o fato é que estudantes conhecem muito pouco disso.
A pesquisa é algo fundamental para escritores cujas intenções sejam adentrar no mundo desses seres imaginários. É preciso dedicação, tempo e referências.
Além do conhecimento, da leitura, da pesquisa, existe o entrelaçamento de ideias. A criação de um enredo capaz de abraçar tais mitos e lendas em histórias contemporâneas, aproximando-as dos leitores, sempre ávidos por aventuras mirabolantes, novas e de origem brasileira, é exigente. Não se constrói de uma hora para outra. Não é imediata.
Não posso falar do mercado editorial, do que é vendável, ou economicamente viável para editoras. Sei que escritores desconhecidos, de poucos leitores, não abrem portas para publicação sem trilharem longos caminhos. No entanto, existem as editoras pequenas e independentes, algumas apostando nos talentos escondidos, e existem as publicações independentes e blogs, deixando à mostra essas novas e criativas construções textuais dentro do universo fantástico. Há um mercado para a Literatura Fantástica sim e, no meu achismo, apesar de ela ser uma literatura de nicho, como outras, esse mercado ainda está em seus primeiros passos.
Se as perguntas feitas anteriormente têm múltiplas respostas, há uma certeza: deixar de lado essa gama de personagens fantásticos e as possibilidades de criação de roteiros dentro do contexto brasileiro significa perder um pouco da nossa identidade como contadores de histórias que somos. É pensar limitado e engessar a criatividade.

Indicações de leitura:
Castilhos, Felipe – Ouro, fogo e megabytes; Prata, terra e lua cheia; Ferro, água e escuridão.
Fraser, Ian – Araruama – O livro das sementes; O livro das raízes.
Kastensmidt, Christopher – A bandeira do elefante e da arara.
Neto, Simões Lopes – Lendas do Sul.
Souza, Inglês de – Contos amazônicos.

E completando essa pequena lista, um livro ilustrado riquíssimo:
Lendas - Chiaroscuro Studios Yearbook 2018

Para saber mais:



4 comentários:

  1. Evelyn Postali sendo sempre maravilhosa.

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    1. Obrigada, Thiago, pela leitura e comentário! Que bom você estar aqui. Abraços carinhosos.

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  2. Talvez eu tenha uma ou duas teorias desses porquês........as vezes me parece que personagens como o Saci e o Curupira são levados (pelo mercado ou escritores?) para o campo no infantojuvenil, um(a) mocinho(a) perdido(a) e se descobrindo entre seres místicos.......enquanto as lendas nórdica ou grega remetem ao universo adulto, com guerras e batalhas virulentas.............ou, quem sabe, se escreve pouca fantasia com personagens folclóricos brasileiros porque leitor e escritor não se enxergam nesses universos..........por preconceito, desconhecimento, ou culpa dos canais de TV a cabo.........não sei........ahehahehaeha.........

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  3. uma autora do vale do Jaguaribe soube como poucos criar uma literatura fantástica fundada numa geopoética autóctone. E muitas outras coisas de nossa literatura ficaram de fora da narrativa do modernismo paulista que até hoje domina o ensino escolar das letras em nosso país. o nome dela é Emília de Freitas e o romance se chama Rainha do Ignoto. saudações, nuno g.

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