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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Coluna Asas #19 - As palavras e as imagens (Eduardo Selga)

 


Acabo de ler O pagador de promessas, texto dramático de Dias Gomes datado de 1960, em versão verbo-visual. É uma graphic novel de 2009, publicada no bojo do aumento de publicações de clássicos da Literatura Brasileira no formato quadrinhos, movimento que trouxe como alegação facilitar a interpretação dos cânones e, assim, promover o gosto pela leitura.

Embora a argumentação não seja inválida, acho importante ressaltar que o nexo entre a forma visual de um texto escrito e o hábito de ler não é tão automático assim. É preciso lembrar algo que faz muita diferença na análise do tema: a história em quadrinhos é um gênero narrativo muito diferente da história construída exclusivamente por meio de palavras. O prazer motivado pela leitura de um não necessariamente ecoará na leitura do outro.
Fazendo uma comparação, usando outro gênero que faz uso da imagem, é como o romance O nome da rosa, de Umberto Eco, transposto para o cinema em 1986. Quem se encantou pela obra fílmica e porventura buscou o livro pode não ter sentido o mesmo impacto pelo romance, na medida em que as plataformas narrativas distintas obrigam o uso de diferentes mecanismos narrativos. O uso da palavra escrita demanda uma elaboração feita a partir da sintaxe e da semântica, não de ângulos, luzes, cores e trilhas sonoras; o texto escrito faz o leitor construir para si a imagem da cena, ao contrário do cinema, em que a imagem já está dada, sem margem à criação mental. O livro, portanto, tende a exigir um esforço cognitivo muito maior que o filme: enquanto este facilita e sugere uma ação passiva do espectador enquanto alguém que apenas vê e come pipoca, aquele propõe ao leitor um gesto ativo, pois há imagens a serem construídas na mente.   
Ademais, se determinado livro “traduzido” para imagem deslumbrou o espectador, por que ele haveria de ler a obra? Afinal, seu imperativo por prazer estético está satisfeito. Curiosidade, para saber até que ponto houve “fidelidade narrativa”? Até acontece, mas não creio que em grandes proporções. Talvez ele busque outras obras do mesmo autor, e aí, sim, é um efeito positivo da versão imagética do texto literário.
Entretanto, vivemos em uma sociedade na qual a imagem e seus componentes (cor, brilho, composição etc.) se revelam elementos semióticos hegemônicos, que calam muito tão fundo no sujeito contemporâneo a ponto de por vezes ficar refém deles, sobretudo porque a imagem traz em si a ideia de concretude, opondo-se ao abstrato intrínseco ao texto ficcional pelo fato de ele, inescapavelmente, exigir interpretação. 
Voltando ao O nome da rosa, e a título de exemplo, o impacto que a vilania causa no espectador é apenas uma variante dela; ao ler livro, o peso pode ser outro no mesmo leitor que assistiu ao filme. Entretanto, fica gravado no espectador que o(s) vilão(ões) é (ou são) aquilo que a imagem do cinema mostra, muitas vezes sem se aperceber que são duas narrativas necessariamente distintas cujos resultados não podem ser iguais em sua integridade. 
Na graphic novel a que me referi inicialmente, O pagador de promessas, a cena que apresenta ao leitor o cafetão e a prostituta é bem diferente do texto escrito por Dias Gomes. A cena original é bem mais longa, ele se mostra muito agressivo (quase bate nela), o cafetão mete a mão dentro do decote da mulher para encontrar dinheiro escondido (o que de fato consegue) e ainda ameaça trocar a prostituta, sua fonte de renda, por outra; na revista, a cena é curta, a agressividade é substituída por um comportamento mais civilizado (efeito do politicamente correto?), não há a cena invasiva o dinheiro do decote e a outra meretriz nem é mencionada. Além dessas mudanças, Dias Gomes escreve sobre a prostituta que “Pinta-se com algum exagero, mas mesmo assim não consegue esconder a tez amarelo-esverdeada. Possui alguns traços de uma beleza doentia, uma beleza triste e suicida”. Nenhuma dessas características, porém, aparece no desenho da graphic novel.
Também há uma diferença importante do texto de Dias Gomes se comparado ao filme O pagador de promessas (1962), dirigido por Anselmo Duarte, em relação aos mesmos dois personagens, secundários, porém importantes no construto da narrativa: no texto escrito o homem é negro (característica mantida na graphic novel), ao passo que no filme é branco.  
Claro, relativamente à adaptação há uma necessidade de escolha de cenas e de informações nelas inseridas, mas ao se fazer isso o sentido global do texto é alterado, bem como os atributos dos personagens. Constrói-se, desse modo, outro texto, diferente do original. A essência pode até ser mantida, mas, como alguém já disse muito bem, o Diabo mora nos detalhes. E Literatura é feita de detalhes. Não é o “tecido geral”, e sim a bordadura feita nele.     
A palavra escrita, enquanto elemento semiótico, não tem, hoje, o mesmo peso de outrora. Por isso, o incentivo à leitura não passa tanto pela “facilitação” provocada pela imagem, acredito eu. Tornar mais palatáveis alegorias e construções sintáticas por meio de uma “tradução” imagética, mais facilmente fará o leitor apreciar a ação desenrolada, não a literariedade. E o incentivo à leitura não deve focar apenas em produzir um leitor pragmático, objetivo, que consegue interpretar textos informativos, como manuais de instruções ou reportagens: é preciso que a leitura abra caminhos por dentro da subjetividade do sujeito e a povoe. E o que tem condições de fazer isso é o texto literário.  
Embora não se deva ignorar a contribuição dos quadrinhos, ou de qualquer outra plataforma semiótica, parece-me que um sólido incentivo à leitura, que efetivamente estimule a busca por textos verbais de crescente complexidade, demandaria uma radical mudança epistemológica. A espetacularização da sociedade bem como seu pragmatismo utilitário precisariam dar espaço a outra maneira de pensar, que revalorizasse a arte e a ciência; o subjetivo, não a objetividade que esteriliza a imaginação. Essa nova maneira não pode existir na expectativa do lucro ou da posição social, e sim por ser o caminho de uma humanidade melhor.
Há uma movimentação social em curso, há uma disputa no Brasil e no mundo. O resultado disso será uma mudança no modo como se percebe os valores que servem de sustentáculo para a organização social. Se emergirá daí uma mudança suficientemente forte para revermos o percurso pelo qual hora caminhamos, não sei; se o conhecimento humanista voltará a ter o peso que um dia já teve, disso eu gostaria muito. Temo, porém, que a tendência do famoso “novo normal” (duas palavras de sentido oposto, que cabem mal na construção da ideia pretendida) seja a exacerbação da imagem e do espetáculo. Logo, o conceito de Literatura, já em processo de metamorfose, tenderá a confundir-se com o de Narrativa, e aí toda e qualquer história contada será considerada Literatura, desde que agrade ao subjetivo gosto pessoal. 


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