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segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Coluna Asas #14 - Escrever os mortos (Catarina Cunha)



Uma morte é uma tragédia para alguém. Qualquer defunto merece ao menos alguém que se lembre dele com carinho. Perdi minha mãe há vinte anos e não há um dia sequer em que ela não compareça, seja através de lembranças ou na constatação de que envelhecemos, como nossos pais. Este é um patrimônio pessoal que me ajuda muito na hora de escrever. 
O primeiro parágrafo é fato, mortos estão mortos, vivos estão vivos. Mas quando criamos um personagem, no liquidificador entre a cadeira e o teclado, misturamos nossas referências pessoais e históricas de vida e morte. Até o personagem que nasce com o epitáfio pronto, mesmo que morra na primeira linha, ele estará vivo durante toda a história. 

Temos também o personagem onipresente na mente do leitor, não possui persona definida porque o escritor induziu sua existência metafórica para que o leitor molde, de acordo com os seus valores, as características que justificarão seu lugar no mundo literário. O melhor exemplo que me ocorre no momento é Moby Dick. 

A Baleia é o personagem onipresente, algo acima do sim e do não, do bem e do mal, da vida e da morte. O seu poder está na cabeça do leitor. O cargo de um personagem é vitalício, embora sem o menor lastro científico. Ele plana no subconsciente e não exige atestado registrado em cartório. 

Logo, ler e escrever rompe a barreira entre a vida e a morte. Escrever os mortos é uma forma de torná-los imortais. 


 

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