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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Coluna Asas #9 - Do que eu falo quando eu falo de corrida, de Haruki Murakami (Fabio Shiva)

 


Ao ler esse excelente livro, uma frase que ouvi em algum lugar ficou martelando na minha cabeça: “Seja o que for que você faça, tem sempre um japonês se esforçando para fazer melhor, menor e mais rápido!

 Essa frase jocosa, que expressa muito do espírito japonês do “Ganbatte” (algo como “faça o seu melhor”), também tem muito a ver com a vida e a obra do incrível sensei Haruki Murakami.

Primeiro, ele decide abrir um bar de jazz em Tóquio, mesmo sem ter tido nenhuma experiência com o comércio. O bar se torna um sucesso, então Murakami decide vendê-lo, para se dedicar à sua nova carreira: escritor profissional. Isso porque ele escreveu um romance para participar de um concurso literário, enviou os originais de sua primeira obra (sem tirar cópias!) para o concurso, foi premiado, publicado, virou um autor de sucesso, escreveu várias outras obras traduzidas no mundo inteiro. Enquanto isso, nas horas vagas, Murakami se dedica a participar de maratonas e competições de triatlo ao redor do globo e até mesmo, certa vez, de uma ultramaratona, onde correu durante nada menos que 100 quilômetros!

Certamente não se alcança o que Murakami alcançou sem muito esforço, sem muito “Ganbatte”. Assimilar um pouco mais isso foi o primeiro grande ganho que tive ao ler esse livro.

Pois Murakami fala sobre escrever (mas não somente) quando fala de corrida. E sobre o esforço necessário, e sobre o condicionamento físico (!) que se precisa ter para ser um escritor. Levei uns bons puxões de orelha durante a leitura, pois o autor, ao colocar para si mesmo questões cruciais no ato da escrita, acaba devassando e desfazendo qualquer tentativa indulgente de autojustificativa para procrastinar e não escrever, prática muito comum dentre escritores que não aprimoraram sua força de vontade correndo dezenas de quilômetros diariamente. Felizmente para mim recebi com humildade a sóbria e rígida lição do sensei. E aprendi um pouco mais, graças a Deus! Coloquei em prática alguns dos ensinamentos obtidos no livro, e digo com muita gratidão que nunca me senti escrevendo tão bem!

Não que esse livro seja algum tipo de manual sobre como escrever. As lições são mais de ordem existencial, sutil, e não algum tipo de guia passo-a-passo. Felizmente, fui agraciado por uma experiência que está transformando muito positivamente minha vida: a Capoeira, que vem me ensinando como ser uma pessoa melhor e, por que não, um escritor melhor. Sinto que essa vivência com a Capoeira me possibilitou acessar muitos conteúdos “ocultos” no livro, que de outra forma teriam passado despercebidos.

Já havia lido e ouvido falar muito bem de Murakami antes de ler esse livro, que me foi lindamente presenteado por minha querida amiga e editora Bia Machado, a quem expresso, mais uma vez, minha imensa e crescente gratidão.

Outro grande ganho que tive ao ler esse livro surgiu só agora, na hora de escrever a resenha, pois percebi que Murakami é tão bom escritor por ser tão japonês! Mas isso não significa que, para me tornar um bom escritor, eu precise virar japonês! Muito pelo contrário, meu caminho reside em me tornar, cada vez mais, um bom baiano. Que assim seja!

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