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quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Coluna Asas #8 - Precisamos falar de Literatura Infantojuvenil (Renata Rothstein)

 



Abraçar o mundo, criar universos, misturar palavras, (des)construir versos.

Eu tinha seis anos e lembro da minha mãe chegando da rua e me entregando um pequeno embrulho, um presente com um papel enfeitado com pequeninas flores cor de rosa, num fundo azul. A então menina, já imaginando tratar-se de um exemplar de revista com bonequinhas de papel, que vinha com roupinhas, também de papel, para serem recortadas e trocadas (era super moda, nos idos dos anos 1980, essas revistas), surpreendeu-se ao rasgar o papel bonito.

Não, não era uma revista com bonecas de papel o que havia ali: era um livro, um livro que jamais esqueci, dizem que o primeiro amor a gente não esquece – é verdade, pelo menos no caso de livros. Sinto o cheiro, se fecho os olhos posso sentir ainda minhas mãos tocando a capa, segurando o livro, para mim tão pesado, quase perdendo o fôlego, misto de ansiedade e orgulho, afinal, minha mãe achava que eu, do alto dos meus seis anos, poderia ler um livro “grosso” como aquele.

Lembro da dedicatória: “Para a minha filhinha, que começando a ler nos seus 6 aninhos, recebe da mamãe o seu primeiro romance. Te amo”. Olhei a capa. Uma menina de tranças saltitava e embaixo li um nome que me pareceu estranho: Pollyanna. Parei, tentando entender os duplos ‘l’ e ‘n’s, enquanto lia o nome da autora (nunca esqueci, achei lindíssimo): Eleanor H. Porter.

Menina espoleta que era (e acho que ainda sou) saltei de cadeira em cadeira, dei vários beijos na minha mãe, corri para o quarto, de onde saí três horas depois, tendo lido o incrível número de 10 páginas (!). Bom, para uma criança de seis anos foi mesmo um recorde.

Estou lembrando disso porque pensei em Literatura, e qual a melhor forma, mais eficiente e direta, qual o melhor jeito, enfim, de ensinar o gosto pela leitura, do que ensinar uma criança a ler, incentivar o gosto pela leitura, que geralmente termina por se unir ao gosto pela escrita?

Pollyanna, você me marcou, menina.

De todas as formas que poderia ter me influenciado...eu não sei se ainda sei jogar o jogo do contente, mas resolvi hoje que vou brincar um pouco de ser mais contente. De ver até na falta de necessidade uma grande felicidade, como quando você ganha muletas ao invés de brinquedos, e fica feliz porque não precisa delas.

Li e reli muitas vezes esse clássico da literatura infantojuvenil, e acho que vem ao encontro desse meu desejo de escrever para esse público, de incentivar as nossas crianças e jovens a buscar nos livros o alimento da alma, as viagens mais bonitas que podemos iniciar, aqui mesmo, dentro da nossa cabeça. Gratidão à minha mãe, dona Sonia, por desde sempre ter me ensinado que o melhor presente que se pode dar é ensinar a pensar.

E depois de Pollyanna, que levei um ano para ler, vieram outros, tantos, dos clássicos para adultos – sim, eu lia Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, e amava – aos meus queridos Clarissa, de Érico Veríssimo, Éramos seis, de Maria José Dupré, a coleção Vagalume, com destaque para A ilha perdida, também de Maria José Dupré, dentre outros estrangeiros, mais densos, como O morro dos ventos uivantes, de Emile Brontë, Tristão e Isolda, que vinha na versão que li como “autoria desconhecida”, são tantos...

 Minha memória afetiva, mais viva do que nunca... e você, qual a sua lembrança mais antiga de leitura? Conta um pouco pra gente.

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