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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Coluna Asas #7 - Quando vamos parar de acumular livros e migrar para o digital? (Fil Felix)

 



A literatura continua uma das últimas coisas do velho mundo analógico que ainda resiste à modernização e digitalização. O motivo? Bom, esse gera controvérsias. O apego com o objeto livro ainda é muito forte, quase romântico, como o folhear das páginas, sentir o cheiro do papel, seu acabamento artístico ou simplesmente poder carregá-lo para onde for. Outro ponto, que muitos vão ter sua mea culpa, é o fator colecionismo: não sei se é de hoje ou não, mas há uma forte tendência em se ter mais livros do que se consegue ler. O livro na estante, a coleção comprada por um preço bacana, as promoções ou aquela foto bonita que vai para as redes sociais, mostrando as recentes aquisições, muitas vezes mascara a triste realidade de que nem metade desses livros serão lidos, nem hoje e nem nunca.

Agora, por exemplo, escrevo esse artigo olhando para minha estante de livros. O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, de Tom Wolfe: comprei num sebo, super empolgado, há anos; nunca li. Um box com seis livros com tirinhas de Calvin & Haroldo: comprei numa super promoção; mal comecei a ler o primeiro. Coleção As Brumas de Avalon: mesma coisa; li apenas o primeiro. Entre dezenas de outros, que aguardam pacientemente para serem lidos em alguma lista imaginária do futuro. E tenho consciência de que muitos nunca lerei, de fato. Houve uma época em que prometi a mim mesmo que só compraria um livro por vez e só compraria outro quando terminasse esse primeiro. E por um tempo até que funcionou, consegui ler e escrever sobre alguns livros que estava em alguma lista mental há tempos, como Mulheres Perfeitas, de Ira Levin e O Inquilino de Roland Topor. Essa estratégia diminuiu muito a ansiedade e a compulsão por comprar e ter mais livros. Não zerou, mas diminuiu bastante.

Em outro aspecto da literatura, o das histórias em quadrinhos, a doença era ainda pior! Em 2008 me apaixonei pelo universo das HQs, para quê? Quando dei por mim estava frequentando feiras, sebos e livrarias atrás de edições e pegando vários materiais só porque “estavam baratinhos”. E os quadrinhos ainda têm uma problemática: muitos títulos são mensais. Foi quando abri um blog (que mantenho até hoje, felizmente não foi só uma fase!) para escrever resenhas das histórias que lia. E nenhuma novidade: passei a acumular muita revista que não li até hoje. Coleções como Yuki - Vingança na Neve e A Princesa e o Cavaleiro, ambos clássicos, enfeitam a estante até hoje. Comprados por simples compulsão. Muitos vão dizer que isso ajuda a movimentar o mercado, o que é ótimo, principalmente os pequenos autores ou autores independentes. E não discordo, mas além de vender, também queremos ser lidos, não?

E então volto ao ponto inicial do artigo: e o formato digital? Para mim, é uma das melhores soluções para esse problema, diminuindo a compra compulsiva e o eterno acúmulo. Claro, há também quem acumula até PDF, mas aí já é um caso perdido. Mídias como a música e o cinema migraram de forma definitiva para o digital: as locadoras desapareceram e só os fãs compram CD ou DVD. Conseguiram burlar até mesmo a pirataria, que comia solta, ao se renderem aos streamers (que considero uma das verdadeiras maravilhas desse século): Spotify, Deezer, Netflix, Amazon e o YouTube se tornaram itens quase essenciais. As pilhas de CDs ou até mesmo as MP3s que baixávamos praticamente sumiram. Baixar filme e série por Torrent? Só quando não tem nesses sites. Ser “tradicional” nesse universo é considerado até um peixe fora d’água. Que atire a primeira pedra quem nunca chegou a ser julgado por não ter visto a série do momento na Netflix. Mas e os livros digitais? Por que ainda não vingam?

A Amazon possui um sistema semelhante à Netflix, mas de livros, que é o Kindle Unlimited. Aqui no Brasil também existe um site semelhante para quadrinhos, que é a Social Comics (lá fora, existe a gigante comiXology). E o valor das assinaturas variam entre R$15 e $20, ou seja, se você ler um livro por mês praticamente já valeu a pena. Mas o brasileiro médio lê um livro por mês? Não. E está aí, talvez, uma das grandes problemáticas que não deixam esse formato de leitura caminhar de vez. Mesmo as pessoas que compram muitos livros, muitas também não leem um livro por mês, mas ainda terão o objeto em suas estantes (como um troféu). Agora, se você assina um sistema desses, ou até mesmo compra algum e-book, parece que a situação se inverte de maneira estranha, como se só agora existisse a obrigação de consumir de fato o que adquirimos. Senti isso quando assinei o Kindle Unlimited certa vez, sentia quase a obrigação de ler 2 ou 3 livros do catálogo por mês, pra “fazer valer”. Com os quadrinhos, talvez por ser uma leitura mais rápida, continuo firme e forte e consumo quase que 100% no formato digital, seja e-book, Social Comics ou baixando pela internet, porque ninguém é de ferro. Mas mesmo assim, as HQs ainda são muito resistentes ao formato digital, talvez até mais que os livros.

Outro ponto interessante é que várias coisas que ainda são resistentes ao formato digital tiveram que se desdobrar durante essa pandemia. Foi assim com o ensino à distância (EAD), as reuniões e o trabalho home office, encomendas pela internet, exposições online e até mostras de cinema pela internet. Alguns funcionaram bem, outros nem tanto. Mas com certeza 2020 será um ano de transição para muitos deles, que viram no digital uma opção mais viável. As editoras e os pequenos autores também passaram a migrar pro digital, lançando mais e-books, gratuitos ou pagos, e também conseguindo chegar em outros públicos de forma mais direta. Falando por mim, apesar de ainda gostar muito de ter o objeto livro em mãos, cada vez mais me rendo aos livros digitais: a facilidade de ler, de fazer anotações, grifar e copiar frases (ótimo pra estudar!), além de poder ler com as luzes apagadas, tornaram meu tablet meu melhor amigo.

Recentemente li um artigo dos EUA que comentava exatamente sobre isso, mas focando nos quadrinhos. As editoras ficaram cerca de três meses sem lançar material novo (e geralmente chegam centenas de edições ao mês), já que as lojas especializadas estavam fechadas por conta da pandemia. Mesmo assim, ainda não giraram essa chave. Outra questão que é interessante comentar é o tamanho do mercado pirata: seja nos PDFs de livros ou as scans de HQs, é um mercado que movimenta milhões de downloads e até equipes que realizam tradução de materiais que não estrearam aqui ou que nunca chegarão. Um submundo rápido, ágil e organizado, como os tempos modernos exigem, que passam na frente das editoras. E esse artigo americano questionava como as grandes editoras ainda não viram um meio de ganhar dinheiro com isso, já que o capitalismo funciona desse jeito, transformando em algo rentável aquilo que o está prejudicando.

Obviamente, num país como o Brasil, outros inúmeros fatores entram nessa conta. A desigualdade social é imensa, ainda mais escancarada nos últimos meses, em que famílias não possuem sequer um celular para acompanhar as aulas online. Além de diminuir esse consumismo, de acumular livros que nunca leremos, a digitalização precisa ser, também, uma forma de levar cultura a todas as classes, de torná-la mais democrática e acessível, assim como um meio de preservação de materiais. Principalmente pelos meios legais. Porque download paralelo praticamente todo já mundo faz. Mas ainda é um nicho que precisa crescer muito e melhorar seu próprio formato (quem já leu um e-book com ilustrações sabe do que estou falando).

Ultimamente ando comprando só aquilo que realmente vou ler, os demais mantenho tudo digital. E você? Ainda é um consumidor compulsivo de livros, colecionando mais que lendo? Que pensa do formato digital, já se rendeu a ele ou tem dificuldades?

Um comentário:

  1. Muito boa reflexão, Fil. Por um lado dou apaixonada pelo livro físico, sentir o cheiro, manusear...por outro temos a questão da acumulação e da ecologia, urgências, realmente. Eu também estou olhando aqui pra minha estante, chocada estou 😁
    Ah....sobre As Brumas, leia O prisioneiro da árvore, pra mim, o melhor. Bjokas

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