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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Coluna Asas #6 - A literatura e o isolamento (Cassio Rodrigues)

 

Imagem de Julie Jordan Scott, licença Creative Commons, 
disponível no site https://www.flickr.com.


Uma vez um amigo me disse que a literatura é a arte mais solitária de todas. Nem sei se é uma frase de sua lavra ou se ele citava alguém, mas aí a conversa continuou: o escritor de um romance,  por exemplo – o caso dele – passa um ou mais anos escrevendo uma história, revisando, trabalhando sozinho, concentrado, sem qualquer interferência externa, colocando sua arte “à prova” raramente, apenas quando uma boa alma atende ao apelo de ler uma primeira versão incompleta, fazendo-se de cobaia (bendita seja), lendo um tomo  que nem sabe se vai chegar ao final e será um best-seller, correndo o risco de terminar uma amizade (ou casamento) de anos somente pela sua opinião sincera (quando leu uma porcaria). Daí o livro vai para uma prateleira e fica lá, de ladinho, no meio de um monte de outros livros de tantos outros artistas solitários, esperando que algum leitor o adquira e finalmente aquela obra de arte seja admirada por alguém do mundo real. Partindo da premissa de que para ser artista é necessária uma certa dose de vaidade (ouvi também, por aí), ser escritor não é fácil, optar pela literatura é sujeitar-se a muitas “frustrações artísticas”.

Assim há de se pensar que o isolamento, de certa forma, é um aliado de quem escreve, o  mundo criativo perfeito. Ledo engano: como todo trabalho artístico a literatura,  na maioria das vezes, é figurativa, precisa da realidade e da vivência para que exista; a habilidade do escritor está em mostrar a realidade de outro ângulo, inspirar-se nas histórias reais para criar histórias imaginárias mais interessantes que as originais. Não nos esquecendo, obviamente, que um bom escritor antes de tudo precisa ser um bom leitor: viver rodeado de livros num período de ostracismo para ele nunca é viver completamente alheio ao mundo. A literatura se retroalimenta.
É impossível falar sobre isolamento e produção literária sem que me recorde da grande escritora Emily Dickinson. A senhorita Dickson viveu por 56 anos numa pequena cidade norte americana no final do século dezenove. Nunca se casou e viajou raramente, nunca por mais de 150 quilômetros fora da sua cidade natal; seus biógrafos afirmam que nos últimos 20 anos de sua vida praticamente não saiu da residência paterna, passando o tempo cuidando da mãe doente, das suas flores... e compondo alguns dos mais belos poemas da literatura universal.
Sobre Emily, escreveu Jorge Luís Borges: “não há, que eu saiba, uma vida mais apaixonada e mais solitária que a desta mulher”. Não se sabe ao certo os motivos que levaram a poeta ao autoexílio – especulam-se paixões platônicas, saúde frágil, doenças raras. O certo é que Emily Dickinson, independente de quaisquer outros motivos mais “palpáveis”, necessários ao senso comum, foi isolada pelo mundo onde viveu. Um mundo machista, preconceituoso, onde uma mulher tão talentosa, tão à frente do seu tempo, incomodava e era silenciada de todas as formas. A senhorita Dickinson nunca se sujeitou a convenções, questionava a religião dos pais, as regras morais e hipócritas da sociedade em que vivia, com um agravante imperdoável: era mulher.
Sua genialidade incomodava e nunca foi compreendida na época em que viveu. Publicou somente 10 poemas em vida, em periódicos de divulgação literária, e foi por mais de uma vez desaconselhada a continuar sua carreira literária por escrever de forma  digressiva e inadequada, conforme o cânone poético vigente. Após sua morte, a irmã encontrou mais de 1.800 poemas guardados em gavetas, de forma desordenada, que revelaram ao mundo essa escritora única e original. Emily Dickinson criou um estilo criativo único e simplesmente antecipou em mais de 60 anos aquilo que convencionou-se chamar de poesia moderna do século XX, brincando com os sentidos das palavras em versos repletos de expressões pouco usuais e transcendência, usando rimas dissonantes, alterando grafias, incluindo pontuações em momentos surpreendentes da poesia. Revelou-se uma das maiores poetas da história ocidental.  
Surge a questão: até que ponto o isolamento de Emily influenciou sua obra? Não é possível saber, obviamente, até porque este assunto quase nunca está presente em seus poemas, não faz parte da sua matéria-prima criativa. Ela simplesmente escrevia suas impressões sobre o mundo, de forma lírica, filosófica, até satírica, influenciada sim por grandes nomes da literatura em língua inglesa. Certo é que, caso certas barreiras sociais não existissem, provavelmente sua história de vida fosse outra – talvez as portas se abrissem mais facilmente para um poeta homem, por exemplo. O reconhecimento do talento - tanto naquela época como ainda hoje - leva em consideração o gênero do artista. 
Muitos são os motivos que levam autores ao isolamento – sendo que raramente este motivo é uma pandemia, como atualmente. Mesmo que uma certa dose de quarentena (involuntária ou não)  não seja fator determinante na qualidade literária de um autor, não se pode deixar de levá-la em conta quando observamos a sua vida e sua criação. Por mais sutil que possa parecer, o processo introspectivo deixou ali suas marcas.
Uma dessas causas que isola as pessoas, sejam artistas ou não, é a deficiência física – talvez a mais amarga delas. Nosso mundo, em momento algum de sua história, facilitou a inclusão social de pessoas com limitações motoras, cognitivas ou sensoriais:  eles que não deem seu jeito, que corram atrás dos seres humanos perfeitos para acompanhar a marcha da civilização (ou vivam à margem dela). Entretanto, para um escritor brasileiro em particular, isso nunca foi impedimento para que ele se tornasse um dos maiores poetas em atividade na face da Terra, utilizando a ferramenta mais adequada a sua produção literária e disseminação de toda a sua competência artística: a tecnologia. 

Seu nome? Glauco Mattoso.

Mas aí é outra história.



Um comentário:

  1. Perfeito o seu artigo! Não dá mesmo pra saber a exata influência do isolamento na obra de um autor, mas seu exemplo da Emily foi muito acertado. Sempre imaginei como as mulheres como Jane Austen ou as irmãs Bronte conseguiam escrever tão bem sobre a época em que viviam sem presenciar quase nada além da esfera familiar. É um mistério mesmo. Gostei demais do seu texto! Parabéns!

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