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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Coluna Asas #5 - Malditas palavras mal ditas (Catarina Cunha)

 

Imagem de Gerd Altmann, site Pixabay


A Coisa

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita. (Mario Quintana)

Mario Quintana avisou, mas a gente insiste em continuar falando, ou pior, escrevendo malditas palavras mal ditas. Talvez o grande encanto de escrever seja exatamente isto: não saber em que merda vai dar. Não raro dá nisso mesmo. 

Escrevemos sobre alho, alguém que não gosta de alho entende cebola e o alho se descobre gengibre. Afinal, quem errou? O mensageiro, o receptor ou a mensagem? 

Na ficção é tudo muito mais fácil, não há erro. Ninguém ousa, em sã consciência,  identificar o tempero exato do prato. O conto está blindado pela liberdade criativa do Chef, mas a crônica sempre, eu digo sempre, terá um cunho pessoal indissociável de um possível fato. Está mais para a fórmula de um remédio sem bula, mas com muitos efeitos colaterais. 

Então por que será que tantos escritores enveredam por esse caminho torpe das crônicas? Não sei. Se soubesse já teria parado com essa compulsão pelos mistérios do cotidiano. Manipular a verdade à exaustão tem o efeito multiplicador, como um vírus espalhado no ar que vai se adaptando ao receptor para controlá-lo. Daí nascem várias pequenas verdades que, somadas, viram uma grande mentira; interessante colcha de retalhos. Muito diferente do artigo jornalístico, este sim, totalmente comprometido com a verdade dos fatos; logo blindado por provas. A crônica bota a bunda na janela para quem quiser ver, alisar ou bater. 

Depois dessa explanação, tão profunda e transparente quanto uma poça de lama, cabe ao escritor analisar que tipo de escriba é, se blindado, pela criatividade ou pelos fatos,  ou um assumido cronista kamikaze. Independente da forma comunicativa escolhida por ele a culpa, caro leitor, sempre será sua; do contrário escrever não teria a menor graça. 


2 comentários:

  1. Amei! Deu até vontade de me aventurar nas crônicas e deixar a proteção dos contos um pouco de lado. Você tem exatamente o que um cronista precisa, coragem!
    Um beijo, Cat!

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  2. Eu tenho uma dificuldade muito grande com crônicas! Curiosamente, na época do vestibular, era o que eu mais gostava de escrever, como um escape aos textos dissertativos-argumentativos que precisava escrever para "treinar"... Deu saudade de escrever uma crônica, depois daquela época, nunca mais...

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