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sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Coluna Asas #13 - Lugar de fala, dar protagonismo, roubar protagonismo (Evelyn Postali)

 

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Enquanto preparo o feijão para o almoço, reflito sobre pontos de mudança e evolução e como livros são importantes dentro desse contexto porque são ferramentas para promover a representatividade. São, sim, como muitos ainda dizem: janelas para o mundo. E ele é grande e carregado de realidades diferentes da nossa.

Puxo da memória os personagens construídos por mim e contabilizo as vezes em que mostrei essa diversidade. Penso nos meus textos por primeiro porque são o exemplo mais vivo, o mais próximo e capaz de tornar coerentes as minhas ponderações sobre lugar de fala, roubar e dar protagonismo. Depois, volto a pontuar leituras feitas de autores nacionais e estrangeiros a apontar os maravilhosos matizes dessa vida na pele de pessoas tão diversas.

Não há como negar, entretanto, que apesar dos avanços, tanto em Literatura, quanto em outras formas de expressão artística e visual, o lugar de fala de determinados segmentos está vazio. Livros, filmes, séries, novelas...  Não há efetivo protagonismo ainda, porque não há efetivo lugar de fala na sociedade onde vivemos.

Estamos no século XXI e na contramão da evolução, em uma sociedade repleta de preconceitos estruturais e vaidades; preconceitos, muitas vezes, silenciosos e silenciados pela maioria. Grupos minoritários são marginalizados, têm pouco espaço para expressar seus interesses, vivências e necessidades. São invisíveis em uma sociedade brasileira doente. Não ocupam seu devido lugar porque lugar de fala tem a ver com justiça social, com igualdade de direito, com acessibilidade e dignidade.

Dar protagonismo é dar visibilidade, é compor, em meu caso, uma história real, cujas vozes dos personagens são vozes de sujeitos desconsiderados durante muito tempo como protagonistas. É ter, no conjunto da história, diversidade. É fugir de uma ‘estética’ imposta: rígida, branca, heterossexual, de corpo sarado, sem cicatrizes, simétrica e frágil. É preciso romper as barreiras ainda conservadoras na representatividade. 

Eu, como mulher branca, cis, ocidental, estou errada em escrever uma personagem negra, ou lésbica, ou asiática? Não, claro que não. O que eu devo ter sempre em mente é a limitação da minha visão de um mundo que não é meu, de um lugar que, apesar de pesquisas feitas, da busca por conhecimento sobre o assunto, ainda é e sempre será limitado. É a visão de alguém que está em uma posição muito diferente em termos de experiência de vida. Não posso roubar a voz do outro porque perpetuo aquilo pelo qual me oponho: a falta de representatividade. Posso, entretanto, usar minha escrita como ponto de criação de um imaginário com mais diversidade, onde vale a pluralidade, a projeção de identidades e subjetividades. Posso continuar criando personagens plurais, verdadeiros em sua identidade, livres de caricaturas grotescas, estereótipos capengas impostos em um passado recente.

Meu trabalho de escrita é sempre difícil e solitário, mas nessa luta por dar protagonismo - luta justa e necessária – sinto que não estou só. E é preciso seguir. E é preciso mais. 


Sugestões de leitura:

Os nove pentes d’África – Cidinha da Silva – Mazza Edições.

Obax – André Neves – Brinque-Book.

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo - Benjamin Alire Sáenz – Seguinte, Companhia das Letras.

Um homem só - Christopher Isherwood – Nova Fronteira.

Zulu – Caryl Ferey – Editora Vestígio.

Na minha pele – Lázaro Ramos – Editora Objetiva.

Mesa 27 – Adriana Nicolodi – eBook Kindle.

Antes que anoiteça – Reinaldo Arenas – Editora Best Bolso.

O cabelo de Lelê – Valéria Belém – IBEP.


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