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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Coluna Asas #10 - Literatura contra a realidade tumbeira (Eduardo Selga)


Única foto com escravizados em navio negreiro, de Marc Ferrez.


Tapar o nariz e mergulhar fundo nas páginas da história brasileira pode ser uma experiência chocante, mas sem dúvida nos ajuda muito a entender que o momento presente não é fortuito: algumas de suas raízes, tão fundas que ancestrais, estão enterradas ao longo de séculos. Tragédia para muitos e comédia farsesca para muito poucos.

Era uma trivialidade indivíduos das mais diversas etnias africanas, arrancados do solo original para servirem no Brasil ao lucro da Coroa portuguesa, serem acometidos de banzo, uma nostalgia melancólica, nebulosa, que os conduzia ao suicídio e a outras mortes, resultado da saudade da terra natal unida à certeza da absoluta impossibilidade de retorno. Não era, porém, um romântico “morrer de saudades”: antes, uma das formas de assassinato que a brutalidade escravocrata impôs e, por vias indiretas, um desorganizado protesto contra a barbárie colonialista.

Insistimos em não mergulhar em nossa história. Por isso mesmo nos empurraram em águas profundas. Ou melhor, nos atiramos nelas. 

Puxemos a respiração para volver à superfície. Olhemos em torno, segurando em algum tronco ou carcaça flutuante. Brasil — templo da pós-verdade — segunda década do século XXI. Diante das chibatadas que estamos sofrendo, como se a nossa pátria houvesse sequestrada e vivêssemos boiando, sem uma constituição sólida o bastante que nos sirva de cais, com agentes que servem ao caos, boa parte de nós banzeia, presa nas correntes da pseudoinevitabilidade dos fatos. Também há os que, não sofrendo os golpes da chibata, zumbizam.

Começo dessa maneira o primeiro de uma série de artigos que passo a escrever para a Caligo, não sem o devido agradecimento a Bia Machado pela gentileza do convite a mim feito, para dizer que fugir do porão tumbeiro no qual nos metemos (conscientes ou não do suicídio representado por tal soturnidade) é algo que exigirá, além de todas as movimentações sociopolíticas, o concurso da arte, sobretudo da Literatura.

Ao contrário, porém, dos vinte e um anos de militares ditando os destinos políticos do país, quando a manifestação literária de resistência era essencialmente uma ferramenta da luta de parte da classe média (uma espécie de tradutora dos anseios democráticos brasileiros), dado que os autores em sua maioria a ela pertenciam (Chico Buarque, por exemplo), na atual tragédia a chamada literatura periférica pede passagem. 

Sujeita a classificações sempre questionadas muito em função de ser produzida por quem antes, no máximo, lia, a literatura periférica (feminina, negra, LGBTQIA+ e outras categorias), é a expressão estética da voz de quem sempre a teve rouca ou nenhuma. 

Também por causa dessa característica, é comum o recurso da autoficção, em que o eu ficcional conta uma história “real”, necessariamente alterada pelo escrever literário. Por isso não se trata de autobiografia. Traz consigo, no entanto, a sensação de uma realidade que os “autores periféricos” sentem necessidade atávica de denunciar, a partir de uma visão que une, com maior ou menor felicidade, estética e ideologia. 

São personagens extraídos dos becos, morros, esquinas, de outros cenários, pouco explorados na literatura tradicional, mas sem os estereótipos sociais normalmente a eles aplicados. São representações do negro, da mulher, do LGBTQIA+ elaboradas por essas mesmas populações, não a partir do distanciamento existente quando o autor não pertence a algum desses grupos.

A importância da autorrepresentação ficcional está no fato de que é um processo por meio do qual, surpreendentemente, o indivíduo periférico concretiza sua existência no ato de ler. É uma descoberta de si nos personagens, algo um tanto mágico. Ele deixa de ser a cotidiana reafirmação de um discurso estereotipado, advindo de classes sociais situadas acima. Noutra ocasião falo mais disso, porém.

É um processo que, ao tratar de subjetividades normalmente menosprezadas, põe em movimento grandes conjuntos sociais em diversas direções nos níveis individual e coletivo, inclusive no sentido do engajamento por uma nova mecânica social. Ocorre uma transformação na subjetividade do sujeito periférico feita por ele mesmo, conduzindo a procedimentos maiores.       

A letargia do banzo em que se encontra boa parte da população, vitimada pelas sucessivas tragédias que se abateram sobre o país desde meados de 2018, pode encontrar na arte, sobretudo na arte da palavra — discursiva por essência — seu antídoto. Ou parte dele.

Romantismo, há quem diga. Mas não afirmo que a arte mudará por si os rumos políticos do país (aí, sim, seria romantismo). O que defendo, e sinceramente espero, é a literatura periférica enquanto ponta de lança na medida em que fortalece a subjetividade dos sujeitos secularmente discriminados. E a subjetividade é uma raiz que costuma gerar árvores frondosas, embora não necessariamente lindas. 

O leitor pouco afeito à leitura, muitas vezes porque o universo ficcional é árido por tratar de um universo quase alienígena, esse leitor, de posse de narradores e personagens “reais”, de certa maneira intercepta a chicotada que busca rasgar-lhe a pele e, quem sabe, joga no oceano o tripulante do navio negreiro. Esse interceptar é consequência de um duplo e simbiótico fenômeno de apropriação: a ficção se apossa da “realidade” e os leitores se apropriam da ficção.

Por essas e por outras, literatura é mais que escrever e degustar o texto como se fora um drinque ou iguaria: é vislumbrar horizontes para fugirmos ao banzo e reaver nossa alegria.


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