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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Coluna Asas #1 - Aulas de literatura, de Julio Cortázar (Fabio Shiva)

 



Que deleite poder frequentar a classe de maestro Julio Cortázar!

Este livro é a transcrição de uma série de oito aulas (e mais duas palestras) que Cortázar ministrou em 1980 na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Creio que a maioria de seus alunos era de latino-americanos, pelas perguntas feitas e pela impressão de que as aulas foram ministradas em espanhol.

Para quem ama a Literatura, essas aulas representam um tesouro inestimável, graças ao carisma do professor Cortázar, que com sua fala macia e envolvente vai nos conduzindo por labirintos simbólicos e extremamente atrativos, a tal ponto que eu, pelo menos, não queria mais encontrar a saída, e fiquei triste (como devem ter ficado os alunos da turma presencial) quando as aulas chegaram ao seu inevitável fim.

A tristeza, contudo, acompanhou-me durante toda a duração do curso, pela percepção do abismo que nos separa, nos dias de hoje, das esperançosas alturas vislumbradas no alvorecer da não tão distante década de 1980... Cortázar nos fala de um momento em que os leitores estavam buscando nos livros algo mais que uma “mera” satisfação estética. Colocando sempre a sua jornada pessoal como exemplo, Cortázar fala de um chamado “metafísico” e “histórico” sucedendo o apelo puramente “estético”. Na mirrada literatura de entretenimento que domina o mercado atualmente, até mesmo a etapa inicial, “estética”, já parece pesada e indigesta... que dirá falar de questões existenciais ou de cunho social!

Outro motivo de tristeza é o testemunho de Cortázar de que as pessoas estavam lendo cada vez mais contos... Acho que foi o Rubem Fonseca quem primeiro me chamou a atenção para o fato de que os contos atualmente estão “fora de moda”. Fiquei tentando entender isso, afinal um conto por ser mais curto deveria ser mais atraente para um leitor preguiçoso. A explicação que encontrei foi que o conto é um mergulho em profundidade, assim como, de certa forma, o poema. Dá muito mais trabalho escrever um bom conto que um bom romance, se formos considerar palavra por palavra. Do mesmo modo, ler um conto bem escrito exige bem mais do leitor.

Outra constatação que também teve uma nota de tristeza foi a do isolamento do Brasil em meio à América Latina. Um brasileiro tem muito mais facilidade de ler um livro escrito em espanhol, que nossos irmãos latino-americanos de entenderem o nosso português. Sabe-se lá porque isso! O próprio Cortázar, que é argentino, admite não ter lido quase nenhum autor brasileiro, mas se compraz comentando a literatura chilena, colombiana, salvadorenha etc. Por outro lado, devido às dimensões continentais e à diversidade de povos e culturas que temos no Brasil, penso que está bem que assim seja.

Da mesma forma, assim como no decorrer de poucas décadas a Literatura e as Artes em geral experimentaram tamanha derrocada, nada impossibilita que voltem a se erguer em um período igualmente curto! Confio e espero que a Data Limite e a Transição Planetária estejam trazendo em seu bojo um novo florescimento artístico e literário, para o bem de toda a humanidade. Que assim seja!


4 comentários:

  1. Que assim seja! Muito bom e oportuno o seu artigo! Fiquei curiosa e morrendo de vontade de "assistir" essa aula!

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    1. Oi Priscila! Gratidão por seu comentário e por essa energia boa! Assista sim, que mestre Cortázar é poderoso!!!

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  2. Conversando com a Bia Machado a respeito desse interesse pela leitura de contos citado nas aulas de Cortázar, lembrei de uma revista muito legal chamada "Ficção", que foi publicada no Brasil durante a década de 1970, vendida em bancas, com contos de autores nacionais e estrangeiros. Imagine isso nos dias de hoje!

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  3. Oi, Fábio. Muito interessante este seu texto. Fiquei com vontade de mergulhar nestas aulas, que devem ter sido realmente excelentes. Realmente, escrever um bom conto exige muito do escritor pois precisa prender a atenção do leitor em um espaço reduzido. Sobre a nossa falicidade com a leitura de textos espanhois não ser uma recíproca, isso acontece também na fala. Já percebi que eles não conseguem compreender o que falamos com a mesma "facilidade" com que os compreendemos. Bizarro, eu nunca entendi o porquê. Muito legal seu texto. Aguardo o proximo.

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